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Subiu o primeiro lance de escadas, cansado… tinha sido um dia longo, um dia duro. Cada passo pesava quase quinhentos quilos. Pelo menos era assim que ele sentia cada vez que movia a coxa, o joelho, a panturrilha, o tornozelo… cada vez que a sola do pé tocava novamente o chão e ele sentia que não havia progredido muito. Não que ele não se movesse, continuava andando, caminhando, mas caminhava ebriamente como se não houvesse realmente lugar para ir e nem porque ir para este lugar inexistente. Como se ele estivesse infalivelmente preso aquele destinho ingrato, aquela situação.

Virou-se…. mais um lance de escadas… estava no primeiro andar… dois lances de escada para cada andar… mais passos, eram oito degraus cada lance de escada, mais quatro passos para fazer a curva da escada… doze… ele contou, ainda arrastando os passos, agora mais cansado. Mais desanimado. Cada passo que encurtava a distância aumentava a certeza do emprisionamento do seu coração, da sua alma. E do tamanho das impossibilidades que se erguiam como paredes inexpugnáveis ao seu redor. Ergueu a cabeça… terminou mais aquele lance de escada. Queria mesmo era sentar nos degraus ali mesmo e chorar até se sentir idiota. Mas, O tolo inconformismo que muitos chamam esperança o compelia a continuar caminhando, continuar subindo…

Mais um lance… mais meio andar… podia ouvir vozes, mais de uma. Quem estaria lá? Visitas? Parentes? Amigos? Não queria saber na verdade, não importava… não fazia diferença, não ia mudar nada por mais boas intenções que eles tivessem. Contou… mais oito passos, oito degraus… mais quatro… curva… mais um lance e estaria no segundo andar.

E se lembrou que acordou aquele dia, sem querer acordar, comeu sem fome, foi trabalhar desanimado, falou com as pessoas, fez seus afazeres, completamente mergulhado nos estupor fenomenal. Tudo tilintava vida ao seu redor enquanto dentro dele tudo estava meio parado, meio morto. Segundo andar. Curva. Mais um lance.

Depois pegou mais um ônibus, chegou cedo na escola, foi para a biblioteca e tenteou estudar, ler… mas não conseguia se concentrar. Tinha sono, mas não conseguia dormir. Ficou duas horas encarando o livro, esforçando-se para absorver um átimo que fosse do conhecimento que precisava para, trabalhos provas… para ir bem na vida diziam. Não que ele se importasse de verdade… não importava. Curva, mais um lance… terceiro andar… agora faltavam apenas mais dois.

Ajeitou a alça da mochila, a jaqueta escorregava, ele a jogou por sobre o ombro esquerdo e olhou para cima buscando o fim da escada, Quatro lances apenas… Alarme chamou os alunos para a aula, ele correu, sentou-se na cadeira no canto da parede e … quando não podia… pegou no sono, na cara do professor, no meio da aula. Um sono atribulado, cheio de pesadelos permeados dos seus medos, da agonia. Acordou com a voz do professor falando mais alto… o mestre pediu desculpas por acordá-lo e todos riram, alheios da batalha que ia lá por dentro dele.

Quarto andar… a aula terminou e mais três ônibus para casa… descera no ponto, caminhara uns 500 metros, atravessara a avenida, abrira o portão e agora subia as escadas. Curva, quatro passos… mais um lance… faltavam só oito degraus… as vozes mais altas… definitivamente visitas. Muitas vozes. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete… suspiro… olhou para cima, para a porta de onde soavam as vozes. Ele era a imagem da derrota. Sentia-se a imagem da derrota. Bateu na porta… as suas chaves na mão… mas… estava tão cansado. – Já vai… uma voz gritou. A porta se abriu e ela sorriu ao vê-lo entrar. Estava feliz em vê-lo e por um instante o mundo se iluminou novamente. Ainda havia aquele sorriso.