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Laércio era um porco… sim, um porco. Um porquinho, animalzinho, que vivia na fazenda e morava no chiqueiro. Ele se lembrava de nascer, no meio de uma ninhada com tantos outros porquinhos e se lembra de sempre, sempre ter sido o maior de todos eles. Até o dono da fazenda e o veterinário que ele chamara se espantaram com o seu tamanho para tão tenra idade. É um baita porco esse meu amigo, disseram o veterinário ao fazendeiro, eu se fosse você o colocaria separado depois dele desmamar e criaria para ser um reprodutor, esse tem futuro.

Futuro, que palavra engraçada, para um porco, hoje Laércio sabia disso, o futuro geralmente era o açougue em forma de linguiça, toucinho, bacon entre tantas outras coisas. Não era, vamos e convenhamos um futuro brilhante e desejado. Era mais um destino, terrível e inevitável. Para Laércio entretanto as coisas prometiam correr de forma diferente… para Laércio o futuro, parecia um pouco menos sombrio…

Depois que Laércio cresceu um pouco (um pouco mais que seus irmãos de ninhada) e desmamou, foi afastado da mãe e dos irmãos e colocado num cercado só para ele… do lado de outros três porcos, ‘os premiados’ como eram chamados. Era os porcos reprodutores do fazendeiro. E Laércio iria crescer para ser um deles… Sentiu-se sozinho e com frio nas primeiras noites, chorou, resmungou… o fazendeiro lhe colocou mais feno para dormir e lhe deu mais comida e uns tapinhas na cabeça, mas não o colocou de volta no cercado com sua mãe e irmãos.

Se acostume com a solidão meu amigo… ela vai ser sua companheira daqui em diante, disse um porco malhado, muito maior e muito mais velho que morava no cercado do lado. Laércio achava que ser um dos ‘premiados’ ia fazer sua vida melhor que a dos demais porcos da fazenda. Logo descobriu que não era bem assim… como os demais porcos eles também estavam ali para servir aos interesses do fazendeiro.

Laércio não tinha amigos, não saia para passear, a não ser quando tinha que sair do cercado para fazer seu trabalho de reprodutor. Nunca entretanto vira um sequer dos seus filhos. Todos os outros porcos, os que iam virar toucinho e os seus vizinhos privilegiados de cercado carregavam aquele ar sereno. Estavam todos conformados com suas sinas, suas vidas, seus futuros, fossem essas vidas mais curtas ou mais longas… eles pareciam não perder um minuto sequer pensando ou filosofando sobre a vida como ele o fazia de vez em quando.

Pensar não é para porcos. Decretara o gigante malhado do cercado ao lado e os outros grunhiram sua concordância. Mas o que Laércio podia fazer? Deixar de pensar? Como um ser simplesmente deixa de pensar, de questionar. Era apenas mais um porco, mas… um porco pensante. E não sabia ser diferente. Os outros porcos lhe torciam os focinhos. O achavam estranho. Você é diferente Laércio! O fazendeiro lhe dissera com um tapinha na cabeça.

Diferente como??? Será que o fazendeiro sabia que ele era um porco pensante? E ser diferente era bom??? Os outros porcos pareciam achar que não. O fazendeiro parecia achar que sim. Laércio não sabia. Não se decidira ainda. Um dia o neto do fazendeiro se aproximara do seu cercado, escalara a cerca e ficara horas a fio observando-o. E ele, sem muito mais o que fazer, observava o humano de volta. Depois de horas, o moleque se cansara e fora ao encontro do avô que passava por lá.

Esse porco é diferente. Disse ao avô. Sim, esse é o Laércio, meu melhor porco reprodutor. Disse o avó com um sorriso benevolente para o menino. Sim, mas ele é bem mais que isso. Continuou o menino. Verdade? Indagou o velho. Sim, continuou o menino… ele é bem mais inteligente que os outros porcos. Fiquei horas olhando pra ele e ele me olhava bem nos olhos. Ele tem os olhos inteligentes… é como se ele estivesse pensado profundamente enquanto olha para você. Os outros tem os olhos mais mortos, mas parados… Eu acho ele legal! O avô riu alto, você tem uma baita imaginação camarada!

Laércio ouviu essa conversa e ficou animado, alguém percebera que ele pensava, que ele era diferente e achava aquilo legal!

Continua…