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Agora todo mundo, junta aqui… vamos juntar todo mundo pra uma foto. Esse encontro a gente tem que guardar pra posteridade. Um, dois, três… todo mundo olhando pra câmera… Xis!!! Ahhhh, fulano piscou… Nossa, eu saí com cara de retardada, vamos de novo. Não… não… tira mais uma que eu fiquei muito feia nessa…

Desde que inventaram de colocar câmeras, e câmeras cada vez mais potentes digam-se de passagem, nos aparelhos celulares, qualquer mísera e inexpressiva reunião de família, reunião de amigos, grupo de estudos… se transforma num motivo pra tirar uma foto em grupo.

Eu me lembro de um tempo que nem todo mundo tinha câmera e que celular nem existia e que o filme de doze poses para tirar apenas doze fotos era caro pra caramba. Não era todo esse auê… se vc piscasse, se tivesse ficado com a boca torta, etc, etc… vc ia fica sabendo meses depois… anos até… quando o dono da câmera resolvesse revelar o filme. Fazia sentido então… reunir todo mundo, o maior número possível de pessoas para tira aquela foto, guardar aquele momento. Era muito mais que um registro de família, era uma documentação histórica envolta em toda uma questão econômica…

Bora enfiar todo mundo no quadradinho da máquina fotográfica para… aproveitar bem as doze poses do filme. Bora guardar essa foto no álbum da avó e daqui há vinte anos vamos todos rir dos cortes de cabelo ridículos e das calças boca de sino e pensar… Meu Deus que ridículo que eu era. Eu sinto saudades desses tempos… Não dos penteados nem das roupas, nem mesmo das pessoas… mas dos sentimentos, da sensação tola de que éramos uma grande família feliz e que ali naquele meio todos éramos amados e respeitados.

Eu sei que eu só achava isso porque eu via tudo com os olhos de uma criança… mas mais, muito mais que isso… eu sinto falta de como essa sensação refletia nos sorrisos. Eu olho as fotos antigas e me lembro do dia, e me lembro das coisas felizes e olhando para os retratos os sorrisos que eu vejo, no meu rosto mesmo… são sorrisos felizes de verdade. Daqueles que você está com a cara rasgada, mostrando todos os dentes… mesmo descabelado. Daqueles sorrisos que alcançam os seus olhos… A alegria reflete no olhar muito mais do que no sorriso. E eu sinto falta desses sorrisos dentro dos olhares.

A vida bate bastante na gente, e às vezes bate mais forte… e olhando as fotos mais recentes… essas da geração celular em punho… os sorrisos dentro dos olhares não são os mesmos.

Ela sentou-se ao computador, a tecnologia era uma coisa maravilhosa quando funcionava, precisava digitalizar todas as fotos antigas. Um novo jeito de acumular velhas memórias. E enquanto colocava uma por uma na máquina… analisava as fotos antigas e as novas… e os sorrisos… era estranho como os novos sorrisos não tinham mais o brilho dos antigos. Suspirou… talvez um dia voltassem os sorrisos verdadeiros, os sorrisos brilhantes… por hora ela teria que se contentar em apenas relembrar nas fotos antigas.

Fim.

Publicado originalmente em 01/07/2016 em Estante da Shao

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