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Paulo acordou gritando… um grito aterrorizante. Os lençóis da cama todos revirados, encharcados de suor, todo o seu corpo doía… desde o seu encontro com a ‘criatura’ não conseguia mais dormir… duas semanas sem dormir. Como médico ele sabia o mal que isso estava fazendo à sua saúde. Não queria sequer pensar no que isso poderia causar à sua carreira.

Correu os dedos pelos cabelos molhados e resolveu levantar-se. Foi até a cozinha, tomou um copo d’água. Caminhou até a sala, pegou o telefone, discou o numero… esteja em casa, esteja acordada, desejou ele… o telefone tocou, uma, duas, três vezes:

– Alô? – respondeu uma voz entediada.

– Ah, que bom, você não está dormindo. Preciso tanto falar com você…

– Você é quem deveria estar dormindo meu caro. Não tem plantão hoje à noite?

– Sim, mas… não sei se vou trabalhar hoje. As coisas ainda estão muito confusas na minha cabeça e… é sobre isso que eu queria falar com você.

– Sou toda ouvidos.

– Preciso te perguntar uma coisa. Você acredita em Deus… diabo… espíritos… essas coisas?

– Eu acredito no mundo espiritual sim, como dizia Shakespeare… existem mais mistérios entre o céu e a terra que sonha nossa vã filosofia.

– E se… aquilo que eu vi… eu não sei exatamente o que eu vi naquela noite Estela, mas… e se o que eu vi… e se… for… uma coisa… – ele suspirou, não conseguia terminar a frase. Soava ridículo até mesmo para seus ouvidos.- E se o meu paciente não estiver doente? E se ele estiver falando a verdade? E se ele não sofre de esquizofrenia? E se o que ele diz é verdade? Se ele estiver sendo atormentado por… entidades espirituais malignas??

– Eu não sabia que você acreditava no mundo espiritual ? – E eu não acredito… nunca acreditei, você sabe disso… é que… eu não sei. Só não consigo explicar racionalmente tudo o que aconteceu comigo naquela noite…

– Você não me disse exatamente o que aconteceu naquela noite Paulo.

– Eu não  sei se quero falar sobre aquela noite. E-eu… não sei ao certo o que aconteceu. É algo… eu não sei se… consigo processar racionalmente o que aconteceu.

– O caso desse rapaz, ao que me parece, te abalou bastante.

– Eu não diria tanto… era um caso bem simples na verdade. Verdade seja dita, o paciente já passou por diversos hospitais, diversos profissionais e diversos tratamentos…

– Sem nenhuma melhora eu presumo.

– Altos e baixos… o que não é de se estranhar no caso dele. É até bastante esperado que ele resista ao tratamento, já que na cabeça dele,  ele não está doente e sim sobre a influência de algo… maligno.

– E o que aconteceu naquela noite colocou um ponto de interrogação na sua cabeça sobre… a existência… do mal… de algo maligno influenciando este rapaz…

– Eu sinceramente não sei… Talvez eu, precise de uma segunda opinião… Talvez uma junta médica… – ele falava com ela, mas soava como se falasse consigo mesmo, ponderando a possibilidade.

– Seria adequado.

– Sim, sim… seria… você tem toda a razão.

– Sente-se melhor agora???

– Sim, sempre sinto-me melhor quando falo com você. E você sabe disso, não sabe?

– Não, eu não sabia… Mas fico feliz de saber. Agora vê se come alguma coisa leve e tente dormir está bem?

– Está bem.- desligou o telefone com um sorriso no rosto. Estava mais calmo agora. Não completamente calmo, mas… um tanto mais calmo. Só ficaria completamente calmo quando tirasse da cabeça aquela imagem. Não queria achar que estava tendo alucinações.

Continua numa próxima postagem qualquer…

Publicado Originalmente em 17/06/2016 em Estante da Shao

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