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Paulo colocou as malas no chão em frente ao balcão que parecia ser a recepção do local. Para ser honesto o lugar não parecia ser nenhum pulgueiro. Era aconchegante e aparentemente muito limpo. Kael adiantou-se e tocou o pequeno sino… Uma senhora magra de longos cabelos cacheados e grandes olhos castanhos e um sorriso exageradamente grande apareceu porta adentro falando alto.

– Estou indo… Oláaaaa! – o sorriso morreu-lhe nos lábios assim que ela olhou para Kael. – Jesus, Maria, José… – fez o sinal da cruz três vezes. – Mas não é que você é mesmo a cara da falecida? Kael olhou-a, uma interrogação gigantesca estampada nas feições delicadas. – Er… me desculpe, me desculpe… mas é que… eu não esperava, a sua chegada causou um alvoroço na cidade. E todo mundo estava falando da semelhança… Sabe como é né? Cidade pequena… Eu sinceramente não esperava que vocês… – gesticulou apontando a casa. – Achei que ficariam hospedados na casa do viúvo. É um lugar muito mais adequado do que minha humilde pensão.- disse ela num turbilhão incessante de palavras.

– Gostamos de privacidade. – disse Paulo quebrando o clima estranhíssimo com um sorriso encantador. Kael observou-o… fazendo o que fazia de melhor. – E não queríamos causar algum incômodo.

– Claro, claro… eu compreendo.- ela continuava encarando Kael com espanto.- Desculpe-me… – disse ela. – Eu às vezes falo sem pensar, as coisas vão direto para a boca e saem sem passar pela cabeça. – ela riu e Kael não pôde deixar de rir junto. – E eu acabo causando confusão, mesmo sem querer. Não se importem comigo.- Kael então resolveu abraçar a oportunidade que se apresentava.

– Eu entendo… quer dizer, mais ou menos… Até ontem eu nem sabia da existência de outros parentes além do meu tio.

– Coincidentemente parece que ninguém também sabia da sua existência. Eu moro nesta cidade desde que nasci e conheço tudo e todos. Também achávamos que a falecida Cecília era a única parente viva do Professor Gamaliel. Eu particularmente sei que ele tinha duas irmãs gêmeas, que viviam em outro lugar, eu nunca soube ao certo onde… mas que eram casadas e levavam suas vidinhas… – Kael ouvia com atenção o relato. – O seu tio sempre foi uma pessoa muito solitária… até que um dia, Cecília veio morar com ele… os pais dela haviam morrido. Nunca ficamos sabendo como. Ela devia ter uns 6 anos quando chegou na cidade. E o seu tio a criou como filha…

– Certo… – Kael estava tentando absorver toda aquela informação.

– Ela era uma moça linda… como você. Não era uma moça muito agradável posso lhe dizer. Se me perguntarem, tinha bem o rei na barriga. – Fez o sinal da cruz. – Mas não se deve falar mal dos mortos não é mesmo? – Paulo riu. – Ela cresceu e se casou com o rapaz mais bonito, e mais rico, da cidade… o Dr Franco. E eles faziam um casal tão lindo e tão feliz. Até o acidente. Vocês viram como a estrada para a mansão fica próximo à encosta não é? Estava chovendo muito, e ela ia muito depressa… todo mundo na cidade acha que ela tinha brigado com o marido naquela noite por causa do Senhor Rodrigo…

– Rodrigo???- Perguntou Kael.

– Ahhh, claro… me esqueci dele. O Senhor Rodrigo sempre foi apaixonada por ela, e nunca se conformou de perdê-la para o rival sabe? Então, mesmo ela estando casada ele não desistia de tentar conquistá-la, enviava presentes, e cartas e telefonava e procurava se encontrar com ela sempre que possível… Ele e o Doutor Franco se pegaram de socos em diversas ocasiões. Tinham que separá-los diversas vezes. Algumas pessoas acham que ela encorajava o Senhor Rodrigo, que ela gostava de sentir-se amada, admirada, desejada. Mas ela dizia ao marido que não ele acreditava piamente nela. Até que naquela noite… os dois aparentemente tiveram uma discussão, ela pegou o carro e saiu na chuva e… perdeu o controle naquela estradinha da encosta. – Kael sentiu um calafrio percorrendo-lhe a espinha. Conseguia se identificar com aquela situação. Ela também podia ter morrido.

– Deram falta dela apenas pela manhã. Franco achou que ela estava na casa do seu tio. Quando pela manhã o Professor Gamaliel bateu na porta do Doutor Franco foi que eles somaram um mais um e viram que ela estava desaparecida… Encontraram partes do carro boiando próximo às rochas. Mas nunca encontraram o corpo… Dr Franco ficou muito triste, nunca mais se casou nem teve nenhuma namorada, acho que ele se culpa. – Paulo e Kael trocaram olhares…

– Uma história muito triste… – disse Paulo.

– Muito triste mesmo. – a mulher concordou com ele. – Ele era um rapaz tão alegre quando jovem. Estava sempre com um sorriso no rosto. Se tornou um homem muito triste depois que perdeu a esposa. Eu imagino que a sua chegada deve tê-lo deixado muito abalado… – prosseguiu ela sem pensar, as palavras saindo boca a fora. – Desculpe. Eu… falo demais eu sei… – Kael não disse mais nada.

– Bom… – disse Paulo. – Vamos precisar de dois quartos. – Dois??? – ela perguntou, olhando para um e outro. – Sim, dois quartos. Um para mim, o amigo e empresário e outro para minha artista aqui.

– Artista? – ela não continha a curiosidade. Kael apenas assentiu com um gesto de cabeça.

– Sim, bastante famosa por sinal… – Paulo adorava isso. Kael apenas parecia enfadada. E estava aparentemente muito cansada. – Podemos…? – ele perguntou gesticulando escada acima.

Claro, claro… venham, me acompanhem por favor… eu levo vocês. Podem se registrar mais tarde, aposto que estão muito cansados. Vou colocá-los nos melhores quartos do nosso pequeno hotel.

Continua num próximo post qualquer…

Publicado originalmente em 06/06/2016 em Estante da Shao

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