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– O que deu em vc?? Sair que nem um doida a esmo por uma cidade que vc não conhece, vc poderia ter se perdido… – Kael mal ouvia a ladainha de Paulo, já havia pedido desculpas mas… ele sempre achava que tinha que tratá-la como uma irmã mais nova inconsequente.

– Este lugar me dá nos nervos. – disse ela. – Esta casa imensa mais ainda. – cochichou. – Vamos para o hotel da cidade.

– Aquele pulgueiro? – Paulo baixou a voz. – Você quer mesmo trocar isso.- gesticulou em volta. – Por um quarto naquele pardieiro? Aposto que não tem nem banheiro independente. É daquelas pensões que vc tem que ficar na fila do banheiro no corredor.

– Se vc quiser ficar aqui muito bem… Eu não vou ficar, essa casa me dá calafrios. O jeito que essas pessoas me olham, como se me conhecessem me dá ainda mais calafrios.

– Vai ver eles conhecem… – ele murmurou e ganhou um olhar atravessado.

– Que seja, eu estou indo… – disse apanhando a mala e saindo do quarto quase tropeçando em Franco.

– E para onde vocês estão indo?- Franco ele perguntou. Paulo titubeou, gaguejou, não queria ser indelicado.

– Para o hotel. – respondeu Kael sem muita cerimônia, tato não era uma das coisas que ela podia se gabar de possuir. Franco quis protestar mas ela não lhe deu tempo. – Agradecemos a sua gentil oferta de nos hospedar, mas… acho que ficaremos mais à vontade num hotel, não queremos incomodar e estamos acostumados a termos nosso próprio espaço. Não precisamos e muito luxo, apenas de um lugar reservado onde possamos repousar. – Franco engoliu em seco obviamente ofendido com a recusa da moça.

– É… sim… er… agradecemos.- Paulo endossou com um sorriso sem graça.- Eu vou pegar a minha mala… encontro você no carro? – Kael assentiu com um movimento de cabeça e seguiu em direção à saída. Pensou ter visto uma faísca de raiva nos olhos do misterioso anfitrião. Ele acompanhou-a até a porta e olhou-a fixamente nos olhos por um longo instante. Paulo chegou meio correndo.

– Se precisarem de alguma coisa… não se acanhem.- disse Franco estendendo a mão para Paulo, que o cumprimentou efusivamente e depois para Kael, demorou um instante mais que o necessário segurando a mão dela. Depois, com a mesma faísca nos olhos virou-se bruscamente e sumiu mansão a dentro.

– Parabéns! Você pisou nos calos de uma pessoa que aparentemente deve ser uma das mais ricas e mais importantes da cidade… Você e sua eterna falta de tato. Eu vou te contar…

– Você é tão panaca… e daí que ele é rico e poderoso? E vê se para de reclamar feito uma velha! Você não precisava nem ter vindo comigo, podia ter ficado em São Paulo… mas, vc insistiu em vir. – disse colocando a mala no porta malas, deu a volta e entrou no carro. – Só insisti porque eu sou um empresário e melhor amigo maravilhoso que queria apenas ajudar a melhor amiga e empresariada neste momento tão difícil quando o único parente vivo dela está entre a vida e a morte. Você devia me agradecer. – disse ele também entrando no carro e procurando pelas chaves.

– Aparentemente meu tio não é meu único parente vivo…- ambos ficaram um momento em silêncio enquanto Paulo ligava o carro e colocavam-no a caminho para a cidade. – Obrigada. Eu estaria muito mais surtada se vc não estivesse aqui comigo… – ele deu um meio sorriso. -E eu sei que o lugar é mesmo um pulgueiro, e sua bunda gorda está acostumada há um tratamento cinco estrelas… – ele gargalhou alto e ela riu. – Em primeiro lugar surtada deveria ser incorporado ao seu sobrenome. Em segundo lugar sim, minha bunda gorda está super habituada a lugares classudos, como aquela mansão que acabamos de abandonar… – disse com um suspiro. – E em terceiro lugar, lembre-se dos sacrifícios que eu faço por você quando quiser me dar um presente de aniversário, ou de dia do amigo… certifique-se de que tenha algo a ver com uma viagem ao exterior, Nova Iorque seria ótimo… num hotel cinco estrelas, por favor.

– Vou me certificar pode deixar… vou me certificar que eles tenham cadeiras bem grandes de cinco estrelas…

– Para caber minha bunda gorda? – gargalhou ele. – Para caber sua bunda gorda e aristocrática! – os dois riram ainda mais. – Agora, falando sinceramente Kael… eu acho que você deveria aproveitar a oportunidade que a vida está te oferecendo para… não sei… quem sabe… lembrar do seu passado?

– Isso é uma página virada na minha vida Paulo. Meu terapeuta e eu chegamos à conclusão que ficar buscando o passado me impede de viver o hoje.

– Não estou dizendo pra você ficar obcecada pelo passado nem nada. Mas sei lá… é uma ótima oportunidade. Pelo menos para descobrir o resto da sua família não? – ele olhou-a de soslaio.

– É… pode… ser… Não sei. Não posso focar nisso agora. O que mais importa é a saúde do meu tio agora… Quando ele melhorar, quando acordar… tenho certeza que ele vai me explicar direitinho toda esta história. – ficou em silêncio por um longo tempo. Paulo começou a achar que tinha passado dos limites dessa vez. A perda da memória era uma questão delicada para Kael, ela não gostava de tocar no assunto desde que resolvera ‘virar a página’.- Não estou descartando totalmente a ideia… – o encarou. – Mesmo que eu não me lembre de nada… não deixa de ser interessante saber mais sobre… minha família. Eu achei que eu sabia de tudo mas pelo jeito eu estava enganada. É frustrante isso… por que ele não me contaria…???- com um gesto brusco correu os dedos entre os cabelos. Paulo riu consigo mesmo, era tão típico dela, descontar a raiva no cabelo que ela mantinha curto porque ‘não tinha tempo para ficar se preocupando muito com isso’. Kael encarou a paisagem do lado de fora irritada.

Talvez, ela pensava, estivesse encarando as coisas de forma errada mesmo. Talvez devesse aproveitar as oportunidades. E quando tio Gamaliel acordasse… teria que ter uma conversa muito séria com ele. Afinal de contas, que motivos ele teria para ter lhe dito que ele era seu único parente vivo?

– Chegamos!. – disse Paulo.- Brincadeiras à parte eu espero que não seja um pulgueiro mesmo. Kael riu. Eles desceram do carro, apanharam as malas e entraram no único hotel da cidade.

Continua…

Publicado originalmente em 27/05/2016 em Estante da Shao

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