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Abriu a janela de manhã cedo. Os olhos claros ficando cegos por alguns instantes. Tentou piscar a areia do Sr Sono pra fora dos olhos… não conseguiu. Tentou várias vezes enxergar o céu para ver como seria o dia… Conseguiu na terceira vez. Céu azul, sem nuvens. Ia fazer calor de novo. Gemeu reclamando consigo mesmo.

Por que Deus? Céu azul e calor numa segunda-feira? Sol ia obrigá-lo a ter que colocar óculos escuros para andar pelas ruas e o calor ia fazer com que ele chegasse todos suado no trabalho… Calor era legal quando a gente era adolescente e nessa época do ano estava de férias da escola. Podia ficar o dia todo brincando na rua ou na piscina do clube do bairro. Quando se tinha que acordar cedo, morrendo de sono porque não conseguira dormir direito tamanho o mormaço, para trabalhar de terno e gravata num ambiente sem ar-condicionado.

Engoliu o mau-humor momentâneo, tomou banho, tomou seu café e foi trabalhar. Trabalhou toda a manhã. Segunda-feira era sempre um dia complicado. Segunda-feira, o dia internacional do ‘vamos resolver todos os problemas hoje’. Sempre se podia resolver as coisas no meio da semana… mas, porque resolver na quinta algo que se pode deixar para a segunda??

A hora do almoço chegou, ele estava com fome mas não muito, estava apenas cansado, querendo ir para casa, tirar aquela camisa aquela gravata tomar um banho e tentar dormir. Foi para o refeitório, apanhou a marmita e sentou-se para comer. E apenas então reparou na linha de formigas que escalava a parede ao lado da mesa em que ele se sentara. A única que estava vaga por sinal.

As formigas, unidas num esforço hercúleo, se esforçavam para carregar uma casca de pão… presumivelmente, de volta para o formigueiro. Ele pôs-se a observar o trabalho das formigas enquanto almoçava. Criaturinhas organizadas. Admiráveis mesmo. Talvez devêssemos ser mais formigas e menos humanos, ele pensava. Talvez fossemos mais felizes. Elas não queriam muito, apenas o conforto do formigueiro quente e abastecido no inverno, para poderem se multiplicar pela terra. Cada uma delas sabia muito bem qual era a sua função na terra… nenhuma delas se revoltava contra a sua natureza, nenhuma delas queria ser mais importante que a rainha do formigueiro.

Quer dizer, o formigueiro talvez fosse a única sociedade perfeita. As coisas funcionavam. Pelo menos ele ouvira falar sobre isso em algum lugar que ele não lembrava onde. O mundo era um bom lugar, seu avô lhe dissera várias vezes, o que estraga o mundo são as pessoas. Olhando ali naquele momento para aquelas formigas ele tivera um momento de epifania… talvez vovô tivesse razão. As formigas é que estão certas. Talvez na próxima vida, eu devesse nascer formiga. Algumas religiões pregavam que nascer um animal era possível… porque não ser renascer uma formiga???

Deixou-se levar pelos pensamentos, enquanto comia sem prestar muita atenção no sabor do alimento. Sem parar para pensar se estava bom ou ruim. Era apenas mais um dia, mais uma marmita quando de repente… Ai!!! Uma formiga picou-lhe a mão… e caiu de volta na mesa. Filha da mãe! Ele olhou furioso para ela que corria, para lá e para cá em cima da mesa… obviamente perdida longe da fileira, das companheiras, do seu universo.

Enfurecido ele moveu tudo do seu caminho, a marmita, os talheres. Possuído pela fúria e num rompante impensado, tentou… uma, duas, três, quatro, cinco vezes… esmagar a ínfima criatura com a ponta do fino dedo indicador. Então parou… e ela fugiu de seus olhos… Com um suspiro ele pegou novamente a marmita e os talheres, deu uma esfregada na mão dolorida e continuou seu almoço. Ela tinha corrido tão desesperada e ele estava tão desanimado… com tanta preguiça de tentar novamente esmagá-la que deixou para lá…

Ela então que tinha corrido, corrido e corrido… desesperadamente fugindo sem saber para onde, deste violento ataque e… acabara por escapar, voltou para a parede, para o seio das suas companheiras, de volta ao seu mundinho… misturou-se às outras formigas, de volta à fila… a formiga suspirou aliviada… olhando para o gigante, que voltava agora para suas atividades… nem sequer olhava mais para a fila.

Ei Gertrudes… tá pesado aqui esse pão minha filha, será que é pedir demais uma ajudinha??? Claro que não… estou indo Gertrudes respondeu posicionando-se ao lado da companheira e empurrando o pão… o pior tinha passado, era só mais uma segunda-feira complicada.

Fim.

Publicado originalmente em Estante da Shao em 22/04/16

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