bannerSentada na praia Kael se lembrava da tarde em que acordou do coma… no hospital… Toda dolorida. Mal conseguia pensar. A dor era só no que conseguia pensar naquele momento. De quanto doía cada cantinho do seu ser. Não conseguia se mexer e nem falar. Os olhos giraram para um lado, para o outro… mas na posição que se encontrava ela conseguia apenas ver o teto branco.

O que foi que aconteceu comigo? Eu morri? Não… se eu estivesse morta esta não estaria tão dolorida ela raciocinou. Então por alguns segundos desejou estar morta. Respirou fundo… respirar doía. Se eu não estou morta, onde diabos eu estou… num hospital aparentemente. Tentou mexer a cabeça, o corpo não obedecia… Ahhh meu Deus o que eu… eu… eu… quem sou eu?

Não se lembrava de nada… não sabia quem era, onde estava, o que havia acontecido que a deixara naquela situação desagradável. Meu Deus!!! Desesperou-se. Quis gritar, não pôde… os olhos se encheram de lágrimas o coração disparou, medo, raiva, frustração. Seria difícil descrever o que estava sentindo. Ouviu os aparelhos apitando loucamente e uma enfermeira entrou apressada no quarto.

– Mas o que pode ter… – a mulher passou por ela resmungando. – Meu Deus, disse finalmente reparando na paciente, você acordou! Logo chamou outras pessoas, chamou o médico enquanto falava alegremente com ela, checava os sinais vitais. – Doutor, ela acordou. disse assim que o médico entrou no quarto e pôs-se a examiná-la. Eles não demoraram a perceber que ela compreendia o que eles falavam mas não conseguia se comunicar muito bem… apenas através dos olhos, uma piscada, duas piscadas, sim… não… Tentaram a acalmar. Era esperado que seu corpo reagisse assim… ficara muito tempo em coma … meses…

Coma??? Mas como??? O que aconteceu??? Ela queria perguntar. Você sofreu um grave acidente de carro. O médico respondeu à sua pergunta não proferida. Fora da cidade. Ela havia sido trazida numa unidade móvel de tratamento intensivo. Seu tio ficaria feliz em vê-la acordada… Tio??? Que tio??? Lembrava-se muito bem do dia que Tio Gamaliel entrara no quarto do hospital… ele não viera no dia em que ela acordara demorou uns dois dias… ela ainda não conseguia falar, mas ficava a maior parte do tempo acordada agora, lutando com as dores. Depois ele explicara que… morava longe, viera o mais rápido possível… num jatinho fretado.

Lembrava-se do momento que o vira pela primeira vez… Ele entrara dentro do quarto, imensamente alto, o cabelo branquinho como flocos de algodão, mas nenhuma ruga no rosto, os olhos muito azuis, como duas safiras e gelados como pedras de gelo. A fitara por um longo e silencioso momento. Então você finalmente acordou? Soara a voz de trovão no quarto… e ele sorrira. E o olhar gelado se aqueceu e apesar de não se lembrar dele, sentiu-se em casa… em família… Tio Gamaliel cuidara de tudo então, da reforma na sua casa, para recebê-la mais adequadamente… médicos, tratamentos… dinheiro não era problema ele afirmava. Ela devia se preocupar apenas com ficar boa… levasse o tempo que levasse… ele estaria ali ao seu lado para o que ela precisasse.

Foram alguns anos, muitas dores e muita perseverança até ela recuperar o corpo baqueado. Voltar a falar, voltar a andar… voltar a trabalhar… poder morar sozinha novamente. Tio Gamaliel praticamente se mudara para sua casa, e havia as enfermeiras e outros funcionários… pessoas para limpar a casa, cozinhar, arrumar o jardim… mas de vez em quando tio Gamaliel tinha que fazer algumas viagens, porém, naqueles anos difíceis ele nunca se ausentara por mais de uma semana.

Foi ele quem lhe contou a história de sua vida, mostrou fotos… Ela havia nascido em São Paulo, os pais haviam morrido há dez anos, a tempo ainda de vê-la se tornar uma pessoa bem sucedida. Pai tivera um câncer grave de garganta e a mãe… morrera um ano depois de tristeza e saudade do amor de sua vida. Era filha única. Estudara fora do país por muitos anos, voltara após a morte do pai para cuidar da mãe e depois resolveu ficar por aqui quando a mãe também morreu. Ela queria se lembrar, queria saber mais… ficou deprimida.

Foi tio Gamaliel que insistiu para que ela fosse ao terapeuta e foi lá que ela superou a ideia de ficar tentando se lembrar quem era, que resolvera abraçar o futuro, não desperdiçar a segunda chance que a vida lhe havia oferecido. Era uma grande artista tio Gamaliel dissera… devia voltar a pintar, esculpir… ela recomeçou timidamente a principio. Depois as mãos pareciam fazer o trabalho sozinha e ela passava horas e horas imersa na sua arte, no mundo da criação. Uma primeira exposição organizada por tio Gamaliel e um novo empresário… depois de quatro anos afastada dos holofotes e o sucesso…

Acho que não precisa mais de mim agora… ele dissera. Pode tocar sua vida adiante. Se quiser me visitar… sabe onde me encontrar. Dissera anotando o endereço na agenda. Mas ela nunca visitava porque pelo menos uma vez por mês tio Gamaliel vinha a São Paulo e passavam o dia juntos.

Tio Gamaliel era um homem tão grande e forte… jamais poderia imaginar que isso aconteceria com ele. Um derrame… uma veia milimétrica, um coagulo de sangue e lá estava ele… prostrado naquela cama… imóvel… Colocou as mãos na cabeça e correu os dedos pelos cabelos. Sentia-se tão desnorteada agora quanto sentira-se naquele dia que acordara do coma. Se ao menos ele estivesse acordado, se ao menos… se…. Mas não podia desabar agora, tinha que ser forte. Ele iria acordar ela estava certa… mais cedo ou mais tarde e então ele ia ficar melhor e tudo poderia ser esclarecido. Ele mesmo lhe contaria toda a história… e ia lhe explicar porque deixara de fora, de tudo o que lhe contara anteriormente, que ela tinha mais familiares além dele.

Decidida ele ergueu-se e resolveu voltar para a casa que hospedaria ela e seu empresário e amigo. Que ela por sinal abandonara sem nenhuma palavra e sem nenhuma cerimônia. Bateu a areia da roupa, entrou no carro e fez o caminho de volta… tinha que pedir desculpas ao Paulo quando lá chegasse…

Continua no post da semana que vem… Fiquem ligados…

Publicado originalmente em 20/05/2016 em Estante da Shao

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