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Eu estava doente fazia muito tempo. Doente da alma, mas como eu ia explicar para as pessoas? Então eu fiquei agonizando por meses, anos, escondido atrás dos sorrisos. Então, naquela tarde fria de agosto quando o médico me deu o diagnóstico final para todos aqueles sintomas, cansaços e fraquezas que eu vinha tendo… câncer, agressivo, terminal, inoperável, incurável para a medicina atual. Haviam tratamentos experimentais claro… tratamentos paliativos também… ele aconselhava isso, e isso e mais aquilo… meus últimos dias como uma cobaia.

Minha família olhou para mim… eles sabiam o que eu pensava. Eles se preparavam para batalhar contra mim, uma batalha argumentativa na qual onde eles tentariam me convencer a lutar, a tentar… Tentar viver mais. Mas aquela notícia estranhamente fazia com que eu me sentisse tão mais leve… temeroso é claro. Sempre tememos o desconhecido, o sofrimento e finalmente a morte e tudo que ela representa. Mas naquele instante eu só conseguia sentir a leveza do momento. Acabou… é isso… eu finalmente sei como tudo acaba e o peso enorme que eu carreguei nos ombros a minha vida toda se tornara inexistente.

Aquela eterna pergunta sem resposta, qual a minha missão nessa terra? Que me perseguira minha vida toda agora não era tão importante. Fosse qual ela fosse… eu aparentemente já devia tê-la cumprido, afinal… meu nome já estava na lista dos que partiriam em breve. Vou pensar doutor… obrigado. Eu respondi e juntei minha família com um movimento de cabeça e saí do consultórios. Todos me seguindo de cabeças baixas, alguns limpando as lágrimas. Eu entendia a dor que eles estavam sentindo naquele momento… mas, não conseguia se sentir da mesma forma…

Quando chegamos em casa todos sentaram-se e começaram a discutir, o que faríamos, qual tratamento seria melhor, eu me sentei no sofá sem sentir nada… talvez a nova doença fosse a cura para a doença antiga… e era somente isto que me importava naquele momento… era só no que ele pensava enquanto nem sequer ouvia o burburinho das vozes da sua família.

– Eu não vou fazer o tratamento… é experimental… eu não sei quanto tempo me resta ainda, mas… não quero passar este tempo como um experimento científico. Eu sei que talvez seja a coisa a certa a se fazer e que mesmo que eu não me cure, vou virar uma série de dados importantes que podem ajudar a salvar outra vidas num futuro distante… sei que seria a coisa altruísta a se fazer. Mas, eu não me sinto muito altruísta no momento. Disse eu me erguendo do sofá e começando a caminhar para sair da sala.

E vai fazer o quê? Veio a pergunta, previsível como o nascer do sol a cada manhã. Eu sorri e fitei cada membro da minha família demoradamente. E pela primeira vez na minha vida eu vi todos eles juntos e em silêncio. – Viver… o resto dos meus dias com dignidade. Vi que eles queriam debater, discutir, mas com a mão eu fiz sinal para que eles não dissessem nada. – Eu estou cansado, não quero decidir mais nada por hora está bem?

Lentamente caminhou pela casa rumo ao seu quarto, entrou, trancou a porta e deitou-se na cama fitando o teto. As mãos cruzadas atrás da cabeça. Experimentando pela primeira vez a sensação de que nada mais o prendia a essa existência. Era exatamente libertador. Talvez fosse assim que os planetas se sentissem flutuando despreocupadamente em suas órbitas. Sem parar para se preocupar com a hipótese de um cometa gigantesco atingir-lhes e os destruírem, os transformarem em poeira cósmica.

Tinha a família claro… as pessoas que ele amava e que o amavam de volta. Mas… pensaria nisso amanhã. Queria naquele exato momento apenas flutuar livre nessa sensação de não ser nada nem ninguém. Era apenas mais um conjunto de átomos, prestes a se despregarem uns dos outros e se perderem no universo… ou se transformarem em outra coisa. Ele não sabia exatamente como funcionava isso, mas agora nada importava. Estava tão cansado, fazia tanto tempo que estava tão cansado… Sempre tanta coisa para fazer, tanta coisa para se preocupar. Mas nada disso era importante agora… No momento importava apenas ser livre.

Publicado originalmente em 13/05/2016 em Estante da Shao

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