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A primeira vez que tivera contato com aquela menina… Viviane o nome dela… Achou-a estranha. Magra, alta, mulata. Usava Marias-chiquinhas nos cabelos. Tinha uma cara engraçada. Não que fosse feia, mas não a achava bonita. Carregava-se sempre de cabeça erguida, como se desafiasse o mundo numa interminável e cansativa altivez. A testa era larga… e a trazia sempre franzida em concentração ou escarninho. Não se lembrava de tê-la visto sorrir sequer uma vez naquele ano que conviveram.

Tinha sobrancelhas muito negras e grossas… não daquelas que se encontravam no meio da testa, mas daquelas bem desenhadas. Olhos puxados e pequenos… como se sempre estivessem semicerrados era meio vesga… mas vesga assim de leve. Você tinha que prestar muita atenção nos olhos dela para perceber a vesguice. Sobrancelhas grossas e longas que não combinavam com o tamanho dos olhos… nem com o tamanho do nariz. Que era longo, quadrado e pontudo. O Nariz combinava com os lábios que eram finos em cima e largos embaixo. Mas não com o queixo em formato de V que terminava antes de ter um tamanho decente. Não era feia… mas era como olhar um quebra-cabeças montado com peças trocadas.

Sentou-se ao lado da menina estranha no recreio, com seu lanche que não era nada estelar. A sua mãe era amiga da mãe dela. Pareciam ser boas amigas. A mãe dissera animada, e vocês vão para a mesma escola, e vão talvez estudar na mesma sala com a mesma professora. Dissera todas essas coisas como quem determinava ‘seja amiga dela’. Deu uma mordida indiferente no lanche… nem estava com fome. “Me dá um pedaço do seu lanche?” – Foi a primeira coisa que ouvira a menina dizer. “Só um pedacinho… para eu experimentar’.

Claro… por que não? Partiu o lanche e entregou-lhe uma porção, reparando que ela usava a gramática de forma corretíssima… uma menina de dez anos… ficou impressionada. Trocaram informações, nome e tudo mais… A menina mais alta declarou que seriam amigas, iam sentar juntas e ficariam juntas na sala.

Mas… o tempo foi passando e ela não sabia realmente se gostava dessa sua nova ‘amiga’. Uns meses depois… mesma cena, as duas sentadas ao lado uma da outra no recreio entretanto os papéis foram invertidos. Desta vez ela quem pediu um pedaço do lanche da ‘amiga’. E a resposta… “Ahhhhh não, não vou dividir o meu lanche” – disse a criatura altiva quase berrando e olhando-a de cima. Tudo bem… sem problemas… pela primeira vez na vida ela aprendeu o significado da palavra reciprocidade.

Uns poucos dias mais tarde… um episódio na fila, para entrar na sala de aula. A menina percebeu que a ‘amiga’ tinha um pouco de purpurina sujando-lhe a face. “Você está com a cara cheia de purpurina, devia ir no banheiro lavar”. “Eu não tenho cara, quem tem cara é cavalo… eu tenho rosto”. Gritou a outra.”Rosto ou cara… você devia lavar”. Retornou ela… e aprendeu mais uma… certas pessoas tem cara… certas pessoas tem rosto. Apesar de que ela não via muita diferença… ficou de cara com essa indiferença toda.

Os meses iam se passando e cada vez mais a menina tinha mais certeza que não gostava tanto daquela pessoa com quem a vida aleatoriamente a conectara. Um dia ela resolveu fazer uma experiência. Mais uma vez a ‘amiga’ pedira um pedaço do seu lanche. E só para ver qual seria a reação da criatura ela disse não. “Ahhhh sua egoísta”. E então ela aprendeu o significado de mais uma palavra. Aprendeu o que significava ser egoísta… Ser egoísta é quando você não divide o seu lanche com os amigos.

A menina gostava de observar… e gostava de ler. E um dia ela ganhou da sua mãe um livro grande e colorido com diversas histórias. O livro não era tão caro nem tão raro… a mãe comprara numa banca de jornal. Ela levou para a escola para ler no recreio. Já havia muito tempo que ela preferira se afastar das demais pessoas e ficar um tempo num canto qualquer, lendo… a solidão nunca fora sua inimiga. E se tornava ainda menor quando tinha um livro em mãos…

Um dia esqueceu o livro num canto qualquer da escola. Ficou tão triste com a perda do amigo… então a mãe com um sorriso lhe comprou outro e disse. Deixe este em casa… para não perder novamente! Ela assentiu. Quando chegou na escola no dia seguinte a ‘amiga’ estava com seu livro, o tinha encontrado no seu banco do páteo e o trouxera para devolver. “Mas, comecei a lê-lo então só te devolvo depois que terminar.” Não era uma pergunta… era uma afirmação. Uma outra colega então soltou… “A mãe dela já comprou outro para ela”. “Então vou ficar com esse para mim.”

Aprendeu naquele dia que não queria amigos assim. Sentiu-se furtada. Ficar com algo que não é seu porque a pessoa tem dois objetos iguais não deixava de ser furto. Um furto era um furto e ponto final… Mas resolveu não falar nada. Não valia a pena. A lição que aprendera era bem mais valiosa. Aprendeu que algumas pessoas querem ter amigos, mas não tem por timidez ou por serem muito caladas. Entretanto… algumas pessoas realmente não tem amigos porque não sabem serem amigos.

Comentou apenas o caso com a mãe… que concordou com ela sorrindo e a premiou comprando outro livro… o segundo de uma coleção imensa que ela guardaria para sempre.

Fim.

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