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As demais adolescentes olharam para ela espantada. Ninguém a compreendia. Eu mesma, escrevendo agora este conto não sei ao certo se compreendo. Tantas coisas boas aconteceram para ela… as pessoas geralmente tinham pena dela… porque ela adorava enumerar a lista de problemas que ela tinha na vida, e como ela era tão desfavorecida.

Mas uma menina em especial, daquele pequeno grupo do colégio de freiras, talvez entendesse mais que todas nós… as outras alunas e eu a professora. Ela apenas não sabe o que é gratidão! Esta menina decretara um dia durante a aula de educação física. E com ar professoral começou a explicar. Ela se sente inferior às demais pessoas. Então, ela acha que pessoas em melhor situação que ela, pessoas mais inteligentes e capazes tem o dever de fazer algo por ela, para melhorar a sua vida. A menina dissera a uma outra que a olhava espantada. E eu na região da conversa ouvia igualmente tomada de espanto.

E quando as pessoas, por pena, fazem alguma coisa por ela… ela até diz obrigada, ela até agradece, mas ela não não sente gratidão. Não de verdade… Como vai se sentir gratidão sem saber o que significa gratidão? E tem outra… quando acreditamos que é dever da pessoa fazer algo por nós… não tem como ficarmos agradecidos… porque no fundo pensamos… ele não fez mais que a obrigação dele em me ajudar.

Não sei… disse a outra menina… acho que sua opinião é muito radical. Nem por isso ela é menos verdadeira… retorquiu a outra. Repare bem… que depois de algum tempo que alguém fez algo bom para ela … ela logo se esquece. Se alguém lhe perguntar ela sempre vai dizer… ninguém nunca me ajuda. Ninguém nunca faz algo bom para mim… ninguém nunca lutou por mim para tornar minha vida mais fácil, e diminuir os tropeços que tenho que vencer todos os dias…

Lá isso é verdade… a outra concordou. Dia desses ela disse que a professora Hilda tinha sido a única a ajudá-la, que nenhuma das outras professoras tinha feito nada nunca por ela. E nós sabemos que isso não é verdade… ela não quis aprender sobre polinômios, e foi mal na prova e no trabalho, mas a professora Celina deu a nota para ela poder passar de semestre… e ela nem se lembra disso.

Só podemos ser gratos de verdade a alguém quando não esperamos aquela ação da pessoa. Continuou a adolescente sábia. Como assim? A outra perguntou. Quando alguém nos faz um favor qualquer, ou nos faz uma coisa boa e não estávamos esperando por aquela atitude da pessoa, nos sentimos agradecidos. Qualquer outra coisa torna-se obrigação. A outra se pôs a pensar por uns instantes e então concordou com um movimento de cabeça.

Entendo… disse enfim. É como quando nossos pais nos amam e nos presenteiam quando somos bons filhos, mas… quando fazemos algo que achamos que é ruim e eles mesmo assim nos amam… ficamos surpresos e aliviados por termos o amor deles mesmo assim… ficamos verdadeiramente agradecidos. Concluiu. A outra apenas sorriu seu assentimento.

E eu retomei meu caminho… para longe das alunas para a sala dos professores. Imaginando de onde a aluna sábia tirara tamanha maturidade e como ela formulara aquele pensamento. Qual a origem dessa epifania tão profunda numa pessoa tão jovem??? Os pais talvez??? Deus abençoe estes pais… hoje em dia temos pais despreparados criando filhos que… só Deus sabe que tipo de adultos vão se tornar.

Ela deveria me DAR a nota. Dizia a aluna sobre a qual se discutia na cena do início desta história. Que diferença faz dois pontos??? Ela não ia morrer por me dar dois pontos na nota final. Dois pontos para mim são importantes, para ela, apenas dois risquinhos de caneta. Para mim é a diferença na minha vida… que já é tão difícil… eu não preciso de mais complicações na minha vida!!!

Mas você tem que merecer esses dois pontos Mirela… não é assim não. E a professora tem sido tão paciente com você tem te ajudado tanto… tentou argumentar uma outra aluna. É… eu nunca mereço nada mesmo, eu nunca consigo nada mesmo. Se não sou eu… ninguém se preocupa comigo.

Suspirei… procurei imaginar aquela menina daqui uns sessenta anos… será que levaria essa atitude para outras áreas da sua vida, para o seu emprego quando fosse adulta… seria uma pessimista, encostada e ingrata pelo resto da sua vida?? Eu sinceramente esperava que não… mas infelizmente algumas pessoas ao envelhecerem tendem a piorar. Sorri ao me lembrar da adolescente sábia… talvez o mundo ainda tivesse salvação.

Fim

Publicado originalmente em Estante da Shao em 01/01/2016

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