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Primeiro dia de aula, primeira chamada… As outras crianças riram quando a professora disse o nome dela… Foi a primeira vez na sua vida que ela reparou que seu nome era feio. Nunca antes em casa com sua família ela tinha reparado nisso. Por que eu tenho esse nome  mamãe ? Ela um dia perguntou. Foi seu pai quem escolheu num livro de nomes para crianças. E com tantos nomes ele tinha que escolher justo este?

Conforme foi crescendo ela começou a pesquisar sobre o nome… Era uma história bonita, o significado do nome era bonito. Mas o nome continuava sendo feio, estranho. Com uma sonoridade alienígena. Nada semelhante à qualquer outro nome que você ouve todos os dias nos lugares comuns. Não conhecera ainda uma pessoa sequer… Uma pessoa de verdade, assim cara a cara que tivesse o mesmo nome que ela.

Passou toda a infância tendo que aturar piadinhas com seu nome, crianças sabem ser cruéis isso não é novidade. E foi aos poucos se acostumando a sonoridade estrangeira do nome. Começou a ver uma certa graça nas situações cotidianas onde as pessoas não entendiam ou não conseguiam pronunciar seu nome. Fazia apostas mentais consigo mesma, quantas vezes vou ter que repetir o nome até que a pessoa acertasse… Estabeleceu a média de quatro, geralmente tinha que repetir o nome entre três e quatro vezes até que a pessoa entendesse seu nome. Pessoas que entendiam logo de primeira subia em seu conceito.

Quando a adolescência foi embora e com ela aquela veemente necessidade de ser igual às outras pessoas, de se ajustar. O nome diferente deixou de ser tão incômodo. No começo da vida adulta, na verdade o nome diferente começou a ser uma vantagem. Não teria com certeza os problemas das Marias, das Anas, Paulas e Franciscas… Nada de homônimos. Achou legal então… Era legal ser diferente e ter um nome singular era parte disso. Começava por ali… Ser diferente começava em ter aquele nome diferente. Era sempre um bom início de conversa… Era sempre uma curiosidade contar para um novo amigo o que queria dizer aquele nome tão ímpar.

Começou a ver vantagens em ter o nome diferente. Começou a gostar mesmo. Na adolescência tinha jurado que iria trocar de nome quando ficasse mais velha. Masss… Agora a ideia já não lhe era mais tão atraente. Aliás muito pelo contrário. Começou a trabalhar e achou extremamente útil ter aquele nome. As pessoas raramente conseguiam se lembrar dele. Tinham que anotar em algum lugar para lembrar. E geralmente anotavam em papéis que depois perdiam. Era engraçado ver as pessoas batalhando para conseguirem se lembrar, qual era mesmo o nome da moça???? Começou a gostar do nome… Ele até que não era feio, na verdade ele era engraçadinho até…

Demorou muito e muitos anos, muitas e muitas décadas até ela é seu nome fazerem as pazes, mas estavam bem um com o outro agora… Ouviu mais uma vez alguém chamar seu nome… Era a milésima vez aquela tarde. Sorriu… É… Não era um nome tão feio assim.

Fim.

Publicado Originalmente em 15/01/2016 em Estante da Shao

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