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A enfermeira estava impaciente enquanto o médico examinava o paciente atentamente. “Eu não vejo nada de anormal”. “Eu juro para o senhor que quando eu sai do quarto ele estava apagado, e então ele gritou… um grito horrendo, como eu nunca ouvi antes doutor, não era para ele estar gritando com tanto anestésico nele. Chega a me dar calafrios lembrar do grito…” O médico continuava examinando o rapaz. “Pode ter sido outro paciente…”. “Só existe ele nesta ala doutor”. “Este hospital é muito grande… pode ser apenas um eco… de uma outra ala”.

Ela apenas olhou para o médico… “E como o senhor explica o que eu e o outro enfermeiro vimos quando chegamos aqui? Ele estava se debatendo. Veja os braços dele, ele se contorceu de uma forma… como ele conseguiu se contorcer daquela forma e se arranhar todo deste jeito? Não era humano…” acrescentou num tom muito baixo, e fez uma oração em silêncio… Primeira vez em não sabia quantos anos que ela buscava alguma proteção divina. “O outro enfermeiro sequer quer voltar a trabalhar neste hospital. Pediu demissão!”. O médico deu de ombros. “O senhor deveria ver as imagens das câmeras”!

O médico terminou de examinar o paciente que desmaiara, aparentemente de exaustão e não por conta do remédio. “Aumentei a quantidade da medicação, ele não deve dar mais problemas”. Mas ele também ficara curioso ao ouvir a enfermeira falar dos malabarismos e contorcionismos do paciente. As amarras deveriam terem-no impedido de se machucar daquela forma.

Riu-se mais uma vez enquanto caminhava pelo corredor… até onde ia a crendice das pessoas. Estava cansado de ver casos atribuídos a problemas espirituais e eram casos neurológicos. Já vira muitos médicos entrando nessas neuras e se tornando fanáticos religiosos. Ele não iria cair nesta armadilha… Jesus Salva! Diziam os crentes… a Ciência Salva… ele pensava consigo mesmo.

Terminou de fazer a ronda. Gostava do período noturno, do silêncio, da calmaria… Apesar de que estava sobrecarregado de trabalho, como todos os médicos deste país que ainda se atreviam a amar a profissão. Depois de andar por quase todo o hospital e ver todos os seus pacientes sentiu fome, foi jantar… Com sorte nenhuma emergência aconteceria e ele conseguiria comer em paz. Nenhum surto psicótico, nenhum paciente precisando dele…

Não era sempre que ele conseguia, mas naquela noite ele conseguiu jantar em paz. Consulto o relógio… estava quase na hora de mais uma ronda… Mas… estava tudo tão quieto. E como uma pulga incômoda o pensamento do vídeo, da filmagem do que tinha acontecido com o paciente durante o surto, estava lá plantado na sua cabeça… Caminhou até a sala das enfermeiras. “Deixa eu ver o vídeo do paciente… Fiquei curioso… como ele pode ter se machucado daquele jeito.” disse ele em tom calmo. Ela se levantou, pegou um molho de chaves e saiu da sala o médico a acompanhou. “Eu já disse ao senhor… Devíamos chamar um padre, um pastor, um rabino, um pai de santo… alguma coisa. Não era humano…” ele deu de ombros.

Os dois entraram na sala, ela procurou um tempo e colocou o vídeo para rodar. Ela não queria ver novamente aquela cena. O que ela vira… e ouvira… já havia sido mais que suficiente. Posicionou-se atrás do monitor observando as feições do médico que a principio refletiam calma e uma leve curiosidade.

Então, assistiu com uma certa satisfação viu as emoções mudarem e passarem como um flash pelo rosto do médico. Primeiro uma certa descrença. Depois os olhos de arregalaram espantados. E a enfermeira viu com clareza o terror se instalarem naqueles olhos. Viu o suor escorrendo pelas têmporas do médico… enquanto ele gaguejava… “Meu Deus, como é que…??? Isso não pode ser… Não é possível… não é…”. “Não é humano…” ele completou. E ele ergueu para ela os olhos aterrorizados.

“Não me leve a mal doutor… eu não sou, nunca fui a pessoa mais religiosa do mundo… mas coisas assim…” disse apontando para as costas do monitor “faz a gente deixar de duvidar da existência do além…”

O médico ficou mudo por alguns instantes. Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer com o que acabara de ver nas imagens gravadas. Tinha que haver uma explicação racional, uma explicação científica para o que os seus olhos tinham acabado de testemunhar.

A forma como ele se contorcera, amarrado à cama, não era humano, e os olhos revirados… e… ele tinha que convir com a enfermeira, não era para ele estar acordado fazendo tudo aquilo com aquela quantidade de medicação dentro dele. Abriu a boca para falar alguma coisa quando um enfermeiro entrou esbaforido na sala. “O homem acordou de novo… tá gritando que nem… Deus me livre!” Fez o sinal da cruz três vezes… O médico e a enfermeira levantaram apressados e com o coração na boca saíram correndo na direção do quarto do paciente…

Continua numa próxima postagem qualquer…

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