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Verão… a época mais detestável do ano. Tudo era quente, tudo era cansativo, suado, fedorento… não que ela quisesse viver numa terra congelada, longe disso. Mas porque não podia ser Outono o ano todo??? Nem frio demais, nem calor demais, um clima ameno. Uma brisa, uma garoa de vez em quando… era pedir demais.

Essa era uma das coisas que ela faria se fosse podre de rica. Ia comprar uma casa em cada canto do planeta, uma em cada hemisfério, quantas fossem necessárias e iria se certificar que viveria o resto de seus dias viajando, perseguindo o Outono, para nunca mais ter que lidar com o verão.

Não bastava ter que trabalhar o dia todo debaixo do calor escaldante, tinham os insetos que entravam voando loucamente pela janela como aviões de bombardeio dessas guerras que a gente assiste nos filmes, quando tentava abrir a vidraça para uma brisa entrar. Não entrava a brisa, entrava aquele ar quente sufocante e o danado do bicho… Voando bem na sua cara. Se enroscando no seu cabelo. Trazendo caos, desespero, gritaria e desordem. Não necessariamente nesta ordem.

Ligava a TV neste calor infernal e ouvia notícias que uma nevasca se aproximava dos países do Hemisfério Norte. Que inveja… apostava que uma nevasca ia matar tudo que era inseto e mais nenhuma dessas pestes ia entrar voando ou rastejando para dentro de casa.

Como se não bastasse esses ataques tinham os grilos e as cigarras e os barulhos infernais que eles faziam. Quer dizer… o barulho lá fora na rua, no meio das árvores e dos arbustos nem era tão terrível. Era até bonitinho. Mas dentro de casa, dentro da garagem, no fosso do prédio onde aquele cri-cri-cri fazia um eco de atordoar qualquer cérebro… ahhhh era terrível!

Primeiro que o barulho era irritante… e sempre a noite quando ela estava tentando dormir. Nada pior do que vc tentar esvaziar a cabeça depois de um dia cheio e quando vc finalmente consegue, seu cérebro burro insiste em focar no cri-cri-cri do grilo. Aí aquele barulho enchendo os seus ouvidos, ficando gravado nos tímpanos. Como dormir??? Impossível!

Fora isso tinha toda a humanização da cena. Imaginação demais faz mal às vezes. Porque quando vc tem uma imaginação muito fértil vc corre o risco de começar a pensar no pobre do grilo lá… preso no fosso do prédio, sem amigos, sem comida, sem água… gritando cri-cri-cri eternamente… cada cri um pedido de socorro… “Socorro… me tirem daqui… esse fosso é fedorento e não tem folhas. É úmido e o musgo grudou nas minhas asas e eu não consigo voar. Por favor alguém me ajude.” Era torturante pensar nisso…

Se ela não tivesse tanto horror a insetos ela descia lá no fosso e jogava o grilo para fora… Voe meu amigo inseto, seja feliz… só não entre voando pela minha janela. Vá procurar pastos verdejantes, arbustos cheios de orvalho. Vá brincar com seus amigos gafanhotos, cigarras e vaga-lumes.

Mas tinha medo de insetos então o grilo ia ficar lá entalado no diacho do fosso até ele morrer de fome, ou então uma lagartixa encontrá-lo. Estava tão perdida nesses pensamentos que mal notou quando o grilo parou de fazer barulho. Foi tomar banho… na volta ia dormir… então reparou o silêncio. Nada mais de cri-cri-cri do grilo. Ele finalmente se calara… poderia dormir em paz.

Coitado… será que ele tinha morrido? Será que explodiu de tanto gritar? Será que uma lagartixa esperta o ouvira e fora até lá e NHAC, comeu ele de uma bocada apenas? Ou apenas o vizinho do térreo tinha se irritado com a barulheira e POFT acabara com ele numa chinelada certeira? Ela jamais saberia. Dois minutos de tristeza pelo inseto e então se esqueceu. Tinha que dormir, acordar cedo no dia seguinte. Ia se lembrar do inseto novamente apenas quando outro entrasse voando pela sua janela e tirasse a sua paz.

Fim

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