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Manuel estava encolhido dentro do bolso da jaqueta do dono. Fazia um friozinho de madrugada enquanto eles cruzavam as estradas interioranas. O batalhão do seu dono passaria um tempo numa pequena cidade do interior e ele iria junto. O pessoal estava acostumado com o gato… Que o soltado encontrará jogado numa caixa de sapatos. Resgatou o gato, cuidou dele e ele meio que virou o mascote do pessoal.

Bem cuidado ele ficou, grande, gordo, pelo longo, branco e brilhante, com exceção das patas das pontas das orelhas e do focinho que eram pretos. Ele tinha olhos azuis entre penetrantes e brincalhões.

Manuel gostava de desfilar todo imponente pelo pelotão, de ganhar petiscos dos soltados, gostava também de se esgueirar pelo mato alto e caçar ratos, de se arrastar sorrateiro e imaginar que era um leão na selva. Ouvira certa vez os soldados dizendo que leões não eram nada mais que gatos muito grandes e muito fortes. Se imaginava parente desses felinos e fingia ser tão poderoso quanto eles enquanto espreitava suas presas. Ele gostava de correr pelos campos abertos, e gostava de passear de carona na jaqueta do seu dono.

Nos finais de semana ele vestia seu uniforme mais bonito, lustrava as botas, limpava a motocicleta antiga que montara com peças que fora comprando aos poucos e pegava o gato colocava nele um capacete de brinquedo que era uma cópia do seu capacete, enfiava ele dentro da jaqueta, abotoava bem até que apenas a cabeça de Manuel, protegida pelo capacete e enfeitada pelos olhos azuis, ficava para fora… Então os dois pegavam a estrada e iam passear na cidade…

Era uma vida divertida, cheia de novos cenários, novas pessoas, novas aventuras. E Manuel nunca se cansava dessa vida. Nunca… até um certo dia, uma certa cidadezinha, um certo telhado e uma certa gata chamada… Morena.

Aquele dia começara bem comum na verdade… Ele acordara bem cedo, com o raiar do sol, apesar de gostar de ficar deitado a manhã toda, curtindo uma preguiça. Era um novo dia, uma nova cidade… coisas novas para descobrir sempre o deixavam animado. Então ele pulou cedo da cama e saiu explorando…. era a época das quermesses, ele ficou zanzando pela praça principal. Subiu em cima do coreto e ficou observando as pessoas andando para cima e para baixo apressadas ajeitando tudo para o começo da festa com o cair da tardinha.

Subiu na torre da igreja, o lugar mais alto e de lá observou toda a cidade. Muitos lugares para explorar… Manuel passeou e passeou e passeou o dia todo, caçou ratos, comeu petiscos que os moradores da cidade deram para ele, ganhou carinho das crianças, apostou corrida com os cachorros… viu a tardinha chegando. Viu a festa começando… as pessoas dançando. Deu uma longa volta pela praça… evitando os cachorros e resolveu encher a pança de petiscos mais uma vez. Agora que a festa estava rolando com tudo havia ainda mais gostosuras para experimentar.

Depois do jantar acho que era hora de voltar para o acampamento, para o seu dono. Sentou de novo no alto da torre da igreja e tomou um caprichado e demorado banho de língua. Tomou o caminho de volta. Os grandes olhos azuis o levando pelo caminho escuro, pelo caminho de volta… As pessoas então começaram a se reunir em volta de uma fogueira imensa e a cantar canções.

Ele parou um instante para observar o violeiro dedilhando o instrumento e foi então que ele a viu. Rainha do seu telhado, queixo em pé, banhada pela luz da lua e pelo clarão da fogueira. Não sabia o nome dela então, mas naquele instante achou que ele era a visão mais linda que já tivera em toda sua curta vida de gato. Escalou silenciosamente o telhado e postou-se ao lado dela… prudentemente resolveu manter uma certa distância.

“Bela canção não acha?” ele disse e percebeu que a pegara desprevenida pois ela virou-se abruptamente e o encarou. Depois o mediu de cima a baixo com olhos altivos e ele achou aquilo divertido. A altivez da rainha da cidadezinha pequena, a rainha do telhado… riu-se por dentro. Esperou uma resposta que não veio por longos segundos e então ouviu a voz suave soar em tom autoritário: “Quem é você?” Ela perguntou, olhar desafiador. “O que faz no meu telhado sem ser convidado?”.

“Estava passando, ouvi a música, parei para ouvir… Vi você de lá de baixo e… A achei bonita… Resolvi subir, conversar, conhecê-la melhor. Qual seu nome?”- disse ele. “Eu lhe perguntei primeiro… Qual o seu nome?” Disse ela levantando-se e andando em volta dele… cercando-o… Mostrando quem realmente mandava no território.

“Manuel” disse ele sem se abalar, sorrindo ainda. Ergueu-se e fez uma cortesia exagerada. “Meu nome é Manuel cara senhorita. Meu dono é o soldado Alfredo, do primeiro regimento da aeronáutica que está de passagem pela cidade. Veja…” Disse ele apontando para a festa acontecendo. Em volta da fogueira diversas pessoas dançavam. Uma série de rapazes em uniformes se espalhavam entre os rostos conhecidos da cidade. “Eu sempre viajo com ele… Já estive em muitos lugares. Conheci quase o mundo todo!” Disse erguendo a cabeça com altivez.

Morena manteve-se inabalável. “Novamente… Não me lembro de te-lo convidado. Você é um intruso. Deve partir agora… Não é bem-vindo!” Ele percebeu que ela lançara um olhar ao galinheiro. Ele adorava correr atrás das galinhas e assusta-las de vez em quando, até mesmo de comer uma galinha gorda… Mas estava de barria cheia. Riu-se da preocupação dela.

“Está com medo que eu coma todas as suas galinhas?” Ele riu alto, gargalhou. “Não se preocupe, estou de barriga bem cheia. E além do mais sou um gato da cidade, eu como atum e ração… Não gosto de galinha, fedorenta, crua, e cheia de penas que ainda por cima eu tenho que correr atrás para pegar.” – mentiu ele, fez uma careta e se levantou. Se não sou bem-vindo devo partir. Sou um cavalheiro. Inclinou a cabeça em reverência. “E só voltarei se um dia for convidado não se preocupe” saltou graciosamente do telhado caindo em pé. Deu uns passos em direção à estrada. Mas antes voltou-se “Posso ao menos saber seu nome antes de partir? Ou devo apenas continuar chamando-a de senhorita?”

“Morena” disse ela simplesmente tornando a sentar-se no topo do telhado… Dona do território. “Morena!” Tornou Manuel sorrindo de lado, entortando os bigodes. “Eu sabia que tinha que ser um nome lindo… Tal a dona.” Afastou-se lentamente, até a sombra do prédio… de lá, parou um instante ainda observando a Morena. Suspirou… e depois foi para o acampamento dos soldados. Sabia que ele não estraria lá.. mas estava cansado… preguiçoso. Ia se aninhar na mochila dele e cochilar… sonhando com a Morena.

Fim

Continua…

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