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Apanhou o papel, e a caneta… olhou demoradamente para as linhas em branco. Estava decidida a abandonar aquilo tudo. Não era o que ela queria, nunca fora o que desejara. Aceitara porque precisava naquele momento. Não porque fosse uma responsabilidade que um dia na vida ela quisera ter…

Ser responsável por outras pessoas era algo que não queria, não queria mesmo. Na verdade não queria ser responsável nem por si mesma. Infelizmente, chega um momento na vida de todas as pessoas que temos que ser responsáveis por nós mesmos… mesmo não querendo. Responsáveis pelas nossas escolhas… pelos caminhos que decidimos trilhar.

Queria simplesmente escrever aquela carta e abandonar tudo aquilo… mas, seria apenas mais uma coisa para abandonar. Já abandonara tanta coisa na vida. Por motivos plausíveis claro… Tivera que abandonar, tivera que ser altruísta. Abandonar mais este projeto seria… seria por puro egoísmo desta vez.

Mas ao mesmo tempo seria… mais uma admissão de fracasso… E ela não queria mais fracassar. Estava cansada do fracasso, do gosto amargo da derrota. A última vez que fracassara fazia tão pouco tempo… e havia machucado tanto que ainda sentia as dores. Não queria fracassar novamente. Não queria continuar a ser aquela pessoa que não terminava nada…

Estava cansada disso… estava cansada de se sentir um fracasso. O Fracasso tinha que deixar de ser opção na sua vida. Isso tinha que acabar, e tinha que acabar agora… naquele exato momento. Foi até o banheiro, caminhando lentamente… olhando para os pés, se arrastando pelo piso laminado, tão limpinho o piso…

Abriu a torneira, lavou o rosto, deixando a água fria lavar o calor, o cansaço e torcendo para que ela lavasse também a confusão que se encontrava na sua cabeça. Apagar esse filme em repeteco que rodava na sua mente. O enredo?? O eterno duelo entre o que ela queria fazer e o que ela precisava fazer. Se isso era ser adulto era uma droga. Queria voltar a ser criança. Infelizmente ninguém ainda havia inventado uma máquina do tempo para que ela pudesse voltar no tempo e mudar tudo.

Mas se ela pudesse seria que mudaria??? Será que faria tudo diferente? Não… Não faria, não mudaria nada. Não se arrependia das escolhas que tinha feito… Isso era uma descoberta assombrosa… Olhou para seu reflexo no espelho, entre espantada é determinada… Enquanto deixava a torneira correr, desperdiçando água em plena crise hídrica com ameaça de racionamento é tudo mais. Não mudaria nada, mesmo sabendo que as escolhas a trariam para aquele exato lugar, aquele exato momento e para aquele sentimento extremamente horrível que estava experimentando naquele instante. Mesmo sabendo que estaria se sentindo como o epitomio do fracasso.

Fechou a torneira, secou as mãos. O rosto e marchou de volta para seu lugar. Mas a postura agora era outra. Não se sentia mais tão esgotada. Não se arrependia das suas escolhas, e não queria mais ser uma derrotada. Ia mudar as coisas. Ia fazer por onde. Não sabia exatamente por onde começar. Então resolverá começar por si mesma. Detonando a própria postura derrotista… Atravessou o pátio novamente, refazendo o caminho de poucos instantes. Desta vez cabeça erguida e sem arrastar os pés. Ela lerá em algum lugar um dia que qualquer jornada por mais longa que fosse, começava com o primeiro passo…

É esse dia ficaria marcado como o primeiro passo nessa sua jornada para, terminar as coisas, não mais abandonar os projetos quando eles não saiam exatamente como ela queria. Desta vez não… Desta vez ela terminaria.

Fim

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