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Saiu do salão, saiu apressadamente da mansão. Pela porta da frente. Procurou as chaves do carro no bolso e sem pensar novamente entrou no automóvel e saiu sem direção sem se voltar quando uma voz conhecida repetidamente chamou seu nome.

– Kael!! Kael!!! Onde você vai??? – Paulo correu atrás do carro mas não adiantou, Kael não parou, pareceu sequer ouvi-lo e continuou dirigindo. – Onde diabos você vai??? – ele gritou para o nada. – Sua louca…

Kael precisava de ar. Precisava pensar, mais que isso, precisava de um lugar isolado para ficar sozinha com seus pensamentos e tentar compreendê-los melhor. Numa cidade tão pequena no meio do nada isso não parecia tão difícil. Não era como São Paulo. O único modo de ficar só em São Paulo era se trancar dentro do seu apartamento. Ainda assim não se ficava completamente só não é mesmo. Estava-se cercado pelos seus vizinhos e pelos milhões de outros seres humanos nas ruas.

Estar sempre cercada de pessoas desconhecidas sempre a incomodara muito. Nesta cidadezinha não. Desde que ali chegara não se lembrava de ter ficado só sequer um minuto. Todos querendo saber, quem ela era, de onde viera. Não que ela se espantasse… afinal, ela era a forasteira, a novidade. Mas até mesmo seu melhor amigo Paulo estava a sufocando com tanta solicitude. Ela precisava de ar. Precisava de um minuto para se reagrupar.

Duas, três, quatro, cinco, seis curvas e já estava novamente na estrada que a trouxera àquele lugar. A cidade era minúscula. Seis curvas, menos de três quilômetros e estava já fora dela. Havia avistado uma praia deserta quando passara por ali… dirigiu mais uns minutos e avistou a prainha… algumas pedras… ninguém à vista. Era exatamente disso que ela precisava naquele momento. Parou o carro num recuo da estrada e caminhou até a areia sem se preocupar em tirar os sapatos e pôs-se a caminhar.

Okay… ela pensava. Minha vida está de pernas para o ar no momento… Há dois dias eu estava na minha casa, eu tinha meus afazeres, meus planos, meus quadros e esculturas prontos, uma exposição à caminho… as coisas eram bem simples. Então o telefone toca e alguém deste malfadado lugar me liga e diz que meu tio Gamaliel, meu único parente vivo, minha única família neste mundo todo… sofreu um grave Acidente Vascular Cerebral e estava entre a vida e a morte numa cama do único Hospital da Cidade.

Daí eu chego nessa cidade… minha única ideia era colocar meu tio numa Unidade de Tratamento intensivo Móvel e levá-lo de volta comigo para São Paulo onde ele certamente teria um tratamento melhor, mas descubro que não posso sem colocar a vida dele em risco… pelo menos não agora. E é então que as coisas ficam estranhas. Todo mundo me confunde com outra pessoa. Uma outra sobrinha do tio Gamaliel, eu nem sabia que ele tinha outra sobrinha além de mim…

“Agora nesse mundo, do nosso sangue… somos apenas eu e vc minha querida…” ela se lembrava de ele ter-lhe dito estas exatas palavras quando ela acordara do coma de meses depois do terrível acidente que ela sofrera dez anos antes.

A sua chegada e as suas diversas semelhanças físicas com ‘a outra’ haviam causado a maior polvorosa na cidade. As pessoas a cercavam, a bombardeavam com perguntas que ela não sabia responder. E a única pessoa que tinha as respostar estava em coma no único hospital da cidade.

Desde o acidente, ela não se lembrava de nada… nada mesmo… da sua vida antiga. Tudo que ela sabia sobre ela mesma, fora tio Gamaliel que contara para ela… Um acidente de carro, um ano em coma no hospital. Acordara sem saber quem era, onde estava e o que tinha acontecido.

Tio Gamaliel mandara reformar toda a casa com elevadores e rampas, três anos de fisioterapia e exercícios diversos para conseguir voltar a andar… Depois de muita terapia ela decidiu que tinha que deixar para trás a vida de antes, a vida que ela não se lembrava, para poder continuar vivendo… Passaram-se dez anos, ela estava finalmente feliz com a própria vida… Quem diabos era essa tal de Cecilia? Tanta gente falando dela… comparando-a com ela… dizendo tantas coisas a respeito dela… grande parte do que era dito sobre essa tal de Cecilia não era nada legal Ela não parecia ser uma boa pessoa… Talvez fosse a o momento de parar de sentir-se acuada e aflita e descobrir um pouco mais sobre essa pessoa…

Continua num post qualquer…

Publicado originalmente em Estante da Shao em 15/05/16

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