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Era uma vez uma gata chamada Morena. Morena não era uma gata de rua. Morena era uma gatinha de família. Porém de família pobre. Morena era uma gata muito linda, com o pelo todo marrom. Um marrom com creme tão reluzente que parecia dourado de vez em quando.

Morena morava numa cidade pequena, numa cidade do interior com a sua família que a amava muito e morena ajudava muito sua família. Morena era uma gata trabalhadora. Ela caçava roedores e pequenos animais que entravam em casa, que tentavam invadir a pequena horta que ficava no jardim…

Tinha sempre muita coisa que fazer o dia todo… Corria para cima e para baixo executando a sua tarefa. E no final do dia, depois de se limpar dos carrapichos que teimavam em grudar no seu brilhoso pelo durante as correrias que fazia durante o dia, ela se aninhava perto do fogão de lenha na cozinha esperando pelo seu jantar.

Sua dona sempre… Depois de trabalhar muito também durante o dia, se ocupava em preparar o jantar para toda a família. Assim que ela preparava tudo, ela separava uma pequena quantia e colocava na tigelinha vermelha que tinha o nome da gata escrito. Enquanto os donos jantavam, morena atacava sua tigelinha embaixo da mesa.

Depois do jantar Morena se aninhava aos pés dos donos na sala, perto do fogareiro nas noites frias ou então perto da porta onde corria uma brisa nas noites de verão pra ouvir as conversas dos donos ou então… Pra ouvir o velho rádio da família. O pai gostava de ouvir o noticiário. A mãe as radionovelas e os filhos as musicas de Élvis.

Era uma vida simples e Morena era feliz. Mas as veze Morena subia no telhado da casa e mirava o horizonte e espiando assim o sol nascer, ou o sol se por, ou a lua cheia subindo alto na colina ela imaginava… O que havia além da cerca da pequena propriedade rural da sua família? Que aventuras poderiam haver naquele mundão tão grande.

Mas apesar de imaginar como seria lá fora, Morena não tinha vontade de abandonar seu mundinho, sua família e a sua vidinha conhecida. Era feliz no seu cantinho do mundo. Sentia às vezes, apenas às vezes… Sentia que faltava alguma coisa na sua vida. Mas… Todo mundo sente isso de vez em quando.

Os dias de Morena iam assim passando lentamente… Preguiçosamente… Mas felizes. E então, chegou o mês de junho. Chegou uma das épocas do ano favoritas de Morena. A gata amava as festas Juninas, a animação e as comidas.

Claro… Não podia ficar zanzando muito porque tinha medo das bombas e dos rojões. E tinham também os moleques peraltas que sempre tinham ideias malvadas. Haviam moleques que achavam divertido amarrar bombinhas no rabo dos animais, ascender e deixar o animal se debater em desespero. Morena já vira acontecer. Por isso gostava de ficar em cima do telhado da sua casa… A salvo. Ou aninhada no colo de um dos seus donos, onde ninguém se atreveria a amarrar nada na sua cauda.

Numa noite de festa, morena espiava as danças de cima do telhado. O rabo balançando de um lado para o outro acompanhando as baladas tocadas pelos violeiros. Estava distraída nesta doce apreciação quando uma voz soou ao seu lado a assuntando. “Bela canção não acha?”. Morena virou-se abruptamente e deu de cara com um gato branco, de pelagem longa, selvagem e de pálidos olhos azuis que a mirava com um ar de divertimento.

Morena não respondeu nada, apenas observou-o imaginando quem ele seria, de onde viera e… Como subira no telhado e se acomodara ao lado dela sem que ela a tivesse ouvido. “Quem é você?” Ela perguntou, olhar desafiador. “O que faz no meu telhado sem ser convidado?”.

O Gato branco apenas sorriu, lambeu lentamente a pata. “Estava passando, ouvi a música, parei para ouvir… Vi você de lá de baixo e… A achei bonita… Resolvi subir, conversar, conhecê-la melhor. Qual seu nome?”- “Eu lhe perguntei primeiro… Qual o seu nome?” Disse ela levantando-se e cercando-o… Mostrando quem realmente mandava no território.

“Manuel” disse ele sem se abalar, sorrindo ainda. Ergueu-se e fez uma cortesia exagerada. “Meu nome é Manuel cara senhorita. Meu dono é o soldado Alfredo, do primeiro regimento da aeronáutica que está de passagem pela cidade. Veja…” Disse ele apontando para a festa acontecendo. Em volta da fogueira diversas pessoas dançavam. Uma série de rapazes em uniformes se espalhavam entre os rostos conhecidos da cidade. “Eu sempre viajo com ele… Já estive em muitos lugares. Conheci quase o mundo todo!” Disse erguendo a cabeça com altivez.

Morena manteve-se inabalável.”Novamente… Não me lembro de te-lo convidado. Você é um intruso. Deve partir agora… Não é bem-vindo!” Disse ela lançando um olhar ao galinheiro. Ela mesma gostava de correr atrás das galinhas e assusta-las de vez em quando mas nunca machucará nenhuma, ou quebrara os ovos, ou matará os pintinhos. Sabia o quanto os bichos eram importantes para a família. E não iria cair na lábia daquele gato estranho. Ficar distraída para que ele fosse atacar o galinheiro.

“Está com medo que eu coma todas as suas galinhas?” Ele riu alto, gargalhou.”Não se preocupe, estou de barriga bem cheia. E além do mais sou um gato da cidade, eu como atum e ração… Não gosto de galinha, fedorenta, crua, e cheia de penas que ainda por cima eu tenho que correr atrás para pegar.” Ele fez uma careta e se levantou. Se não sou bem-vindo devo partir. Sou um cavalheiro. Inclinou a cabeça em reverência.”E só voltarei se um dia for convidado não se preocupe” saltou graciosamente do telhado caindo em pé. Deu uns passos em direção à estrada. Mas antes voltou-se “Posso ao menos saber seu nome antes de partir? Ou devo apenas continuar chamando-a de senhorita?”

“Morena” disse ela simplesmente tornando a sentar-se no topo do telhado… Dona do território. “Morena!” Tornou Manuel sorrindo de lado, entortando os bigodes. “Eu sabia que tinha que ser um nome lindo… Tal a dona.” E com mais uma reverência sumiu nas sombras.

Fim

Continua… numa próxima postagem qualquer.

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