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Mais uma noite caiu. Era nas horas de escuridão, enquanto ela arrumava a cama, arrumava os travesseiros, e o cobertor e se preparava para tentar dormir que aquela tristeza caia mais uma vez dentro do seu coração. Toda a noite era a mesma coisa. O sol se punha e com a luz ia embora a alegria que ela se obrigava a vestir todas as manhãs. As pessoas não entenderiam.

Quando as portas se fechavam sobre ela, e as outras pessoas ficavam do lado de fora ela podia despir a mascara dos sorrisos e ser ela mesma. Triste, cabisbaixa, sem saber por onde começar. Sem saber exatamente para onde ir e o que fazer. Muitas vezes sentindo que não tinha mais forças para continuar.

Mas mesmo assim ela continuava. Sem forças mesmo. Terminava de arrumar o cobertor, tomava um banho demorado apesar do racionamento de água. Trabalhara duro o dia todo, merecia essa pequena indulgência. Deixava a água cair até a tensão e o cansaco abandonarem os músculos das costas e do pescoço.

Terminado o banho, vestiu um pijama velho, esquentou alguma coisa no microondas e comeu sem reparar no gosto da comida. Não era importante. Tinha que comer, sabia disso. Mas não se importava exatamente com o que estava comendo.

Geralmente o final do dia era a hora em que antigamente ela usava para sonhar, para fazer seus planos. Onde eu vou estar daqui há alguns anos. Agora não se importava mais, nem se preocupava mais de fazer planos, de se ocupar de sonhos. A realidade era triste demais e lhe roubava todas as energias. Não tinha mais ânimos para sonhar.

Terminou de comer, limpou o prato, lavou a louça. Conversou um pouco com a família. Todos estavam sorrindo, contando alguma coisa engraçada, ela forçou um sorriso. Também contou alguma coisa engraçada que aconteceu no seu dia… Escovou os dentes, despediu-se da família e foi para o quarto.

Fez sua oração. Como sempre as primeira frases eram de agradecimento. Pelo dia que tinha passado. Afinal de contas, mais um dia tinha se passado. Era menos um dia para viver com a sua dor e a sua tristeza. A segunda parte era sempre para pedir forças para continuar. Para fazer o que ainda precisava ser feito, cumprir a sua missão, fosse qual fosse a sua missão nesta terra. Algumas pessoas acreditavam fervorosamente em suas missões. Ela já não tinha tanta certeza se essas missões existiam. Se elas existissem ela gostaria muito de saber qual exatamente era a sua.

As últimas palavras da oração eram sempre essas “por favor querido Deus, venha me buscar eu não suporto mais, que esta noite seja eterna e que eu não precise abrir os olhos amanhã de manhã.”

Certa vez alguém que ela amava muito lhe disse que não devemos pedir a Deus pela morte, nem pedir o final das nossas provações. Mas isto também já não lhe importava mais. Apenas Deus poderia compreendê-la agora, compreender sua agonia. As pessoas não entenderiam.

Deitou-se na cama e o sono não vinha apesar do cansaço. Era como se não conseguisse desligar-se. Os pensamentos tristes ficavam rodando, rodando e rodando na sua cabeça num loop infinito.

Já imaginava o dia seguinte, onde teria que fazer novamente todas as coisas que fizeram no dia de hoje, todos os obstáculos que teria que ultrapassar, todos os empecilhos, todas as pessoas torcendo contra, todas as pessoas querendo atrapalhar, deixando as coisas ainda mais difíceis… Suspirou. Já perdera a conta de quantas noites ficara neste dilema, esperando em vão por uma noite de sono e de paz.

Paz… Uma palavra tão pequena, um objetivo gigantesco. Em quantos países neste momento milhares de pessoas sofriam porque não tinha paz. E se tratava da paz física. O oposto da guerra. Quantos horrores todos os duas nos jornais. Presumivelmente maiores que sua pequena batalha interior. A paz que ela queria era a paz de espírito. Todos os anos, no seu aniversário ia à igreja e era isto que pedia para Deus, Pedia paz… Para seu coração, para sua alma. Não perdoa riquezas, nem fama, nem felicidade eterna, nem reconhecimento. Pedia algo tão simples e ao mesmo tempo tão complicado. Paz!

Estava tão cansada, mas tão cansada, entretanto não conseguia pegar no sono. E tinha que acordar muito cedo na manhã seguinte. Continuou revolvendo-se neste dilema interior até que adormeceu de pura exaustão. Amanhã seria outro dia…

Fim

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