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Kael entrou na sala imensa… ainda espantada com o tamanho e com a opulência do aposento. Tudo era imponente, tudo gritava ‘eu custei muito caro’. Parecia que fora ornamentada com o propósito de fazer as pessoas se sentirem fora de lugar… Não era qualquer pessoa que conseguiria se sentir à vontade naquele lugar… Kael certamente não era uma dessas pessoas.

Atravessou a sala a passos hesitantes, devagarinho… olhando em volta, olhando os lustres, as luzes, o teto, os quatro na parede… Era um salão de festas… quase não tinha móveis na verdade, alguns sofás, algumas espreguiçadeiras junto às paredes que não eram perfeitamente retas pois o cômodo era ligeiramente curvo… todas as paredes aliás. Parecia mesmo um salão daqueles de filmes, de contos de fada. A mansão toda era impressionante, mas um salão como aquele… ela esperava encontrar dentro de um castelo na Europa e não numa casa… por mais impressionante que a casa fosse.

Mas o que mais encantava, quase que hipnotizava Kael naquela sala imensa… era o imenso piano de cauda que ficava bem no centro do salão. Ela caminhou lentamente até o instrumento. Tocou-o de leve. Era um piano magnifico… Atrevidamente sentou-se no banco e abriu o tampo das teclas… E então subitamente foi tomada por uma sensação gigantesca de familiaridade. Como se já tivesse feito aquilo um milhão de vezes antes na vida… Desde que chegara na cidade essa sensação de deja vu era mais e mais frequente.

Tocou de leve as teclas… Se u soubesse tocar, ela pensou. Será que…??? Juntou as mãos, posicionou-as sobre as teclas e viu os dedos se moverem como se fossem as mãos de outra pessoa e o som melífluo invadiu o ambiente, seus ouvidos e a encheu de espanto e emoção. Uma emoção que ela mesma não conseguia entender ou explicar. Não conseguia parar de tocar também. Fechou os olhos e concentrou-se nos sons, as mãos, magicamente continuavam tocando. Era como se estivesse num sonho. Não sabia de onde conhecia aquela canção, não sabia nada, nada existia, nem ela mesma existia, estava apenas flutuando entre o real e o irreal ao som daquela canção.

E então tocou os últimos acordes e quando terminou… sentiu novamente o mundo materializar-se embaixo dos seus pés com a chegada do silêncio. Abriu os olhos… espantada com o que acabara de acontecer. Respiração ofegante. Baixou o olhar a fitou as próprias mãos com assombro. Procurando uma resposta que ela nem sequer conseguia formular. Então ouviu palmas soando da entrada da sala e virou-se abruptamente.

– Bravo! disse Franco adentrando o salão enquanto continuava aplaudindo com um meio sorriso sarcástico no rosto. – Eu não sabia que você podia tocar piano tão bem. Disse parando ao lado do piano cruzando os braços, em seu terno alinhadíssimo, e a encarando sério com aqueles imensos olhos azuis, a barba pomposa… ele definitivamente se encaixava perfeitamente com o opulento cômodo.

– Nem eu sabia. Disse Kael, num tom abafado, tenso. Fechou o tampo do piano e ergueu-se rapidamente. 

– Não precisa parar. Franco se apressou em acrescentar, descruzando os braços e colocando as mãos nos bolsos da calça. Por um instante pareceu a ela que um quê de arrependimento passou pelo rosto dele. – É uma música linda. Uma das minhas favoritas na verdade…

– Sim, muito bonita. – disse ela trêmula. – Você toca muito bem. Minha mãe me colocou para aprender e eu estudei muito tempo mas nunca tive nem talento nem paciência para o piano. Mas pelo modo como toca posso dizer que você estudou muito mais tempo e com muito mais afinco que eu.

– Eu… não… saberia dizer. Ele olhou-a sem compreender. – Eu não me lembro de muita coisa da minha vida. Ela ergueu a manga da camisa mostrando a imensa cicatriz. – Estive num acidente sério há alguns anos. Os médicos me disseram que minha sobrevivência foi um milagre. Infelizmente eu não me lembro de nada da minha vida antes do acidente. Então eu não saberia te dizer quanto tempo eu estudei, ou se eu sequer cheguei a estudar piano na vida. Eu…  – ela olhou assombrada novamente para o instrumento.  – Nem sabia que eu podia tocar assim… sorriu nervosamente. – Eu nem sei o nome dessa canção.

Franco fitou-a, estupefato por um longo momento. Incapaz de dizer uma palavra sequer. O silêncio prolongado era incômodo. Então Kael sentiu necessidade de dizer alguma coisa. – Desculpe-me pelo atrevimento. Eu… não devia ter mexido no piano.

– Não tem problema. disse Franco com uma voz pequena. – Este piano ficou calado por muito tempo. Tempo demais. Sinta-se à vontade para tocar quando quiser. Ele queria fazer-lhe mil perguntas, mas sabia no fundo que não obteria respostas. Então conteve-se.

– Obrigada. Com licença… disse a mulher e se retirou. Precisava ficar só, precisava processar o turbilhão de emoções e pensamentos que giravam fora de controle dentro dela. Precisava de ar!

Continua numa próxima postagem…
Publicado originalmente em Estante da Shao em 08/04/16

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