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Ele gritou e gritou e gritou… depois gritou mais um pouco até ficar sem ar. Era a quinta vez na semana que lhe colocava na camisa de força. Me deixem sair… ele gritava. Eu não sou louco! Eu sei o que eu estou dizendo! O enfermeiro alto e forte segurou-o com mais força… ajustou as faixas que o prendiam. A enfermeira loura e gorda retornou com uma seringa. Vai tudo ficar bem… calma agora. Não precisa ficar agitado.

Não, não. não… outra vez um sossega leão na veia… Um sono induzido pelas drogas que não o livravam dos pesadelos horrendos, só o impediam de acordar o que tornava os pesadelos ainda piores.

Anos e anos atrás quando era um adolescente despreocupado… sem jamais imaginar onde seus passos na vida o levariam. Que o trariam a este lugar horrível… Ele se lembrava de uma série de filmes de terror, onde crianças eram atormentados no mundo dos sonhos por um assassino todo queimado. Ele se lembrava de rir daqueles filmes, dos efeitos especiais mal feitos… ele ria de como um por um os jovens iam morrendo pelo filme, e ria dos médicos que não acreditavam neles.

Agora ele estava aqui… neste antro de gente doida, numa situação semelhante. A enfermeira enfiou a agulha em seu braço. Não, não, não… por favor, por favor… não! Ele implorou mais uma vez e mais uma vez foi ignorado. Um… dois… três… quatro… cin…

Boa noite! Disse a enfermeira sarcasticamente. Agora ele deve dar sossego por umas boas horas. O enfermeiro sorriu. Olhando pra cara dele a gente não diz que um rapaz tão magrinho, tão jovem seria capaz de cometer tantas atrocidades. Disse ela saindo do quarto que mais parecia uma cela e trancando a porta. Matou a família toda é? Disse o Enfermeiro alto e sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Com uma faca de churrasco. Completou ela. E quando a polícia chegou ao local ele estava todo ensanguentado e gritando… Quem fez isso? Socorro! Mataram minha família.

O enfermeiro arregalou os olhos. A pergunta já na ponta da língua. Mas as câmeras internas de segurança filmaram tudo. E era ele nas imagens… indefensável! Ela repetira a palavra que ouvira de um jurista na TV enquanto analisavam os detalhes grotescos do crime.

Fora um crime de grande repercussão… o filho mais novo, matara a família toda com uma faca de churrasco… Os pais, os avós e as duas irmãs mais velhas. Preso na cena do crime em flagrante, com a arma do crime nas mãos. Depois de um longo tempo fora declarado insano por uma junta de médicos psiquiatras e jogado no manicômio judiciário.

Durante diversos interrogatórios ele afirmara a mesma coisa. Ouvia vozes fazia meses. Vozes demoníacas. Era o diabo… ou algum espírito maligno qualquer. Não se lembrava da noite do crime. Lembrava de ter saído de casa para beber umas cervejas. Para calar as vozes. Não tinha bebido muito… duas latinhas quando… Acordara no meio da sala… a família toda morta ao seu redor, seu corpo todo coberto com o sangue de seus entes queridos.

Você acha que ele é louco mesmo? Tipo… um esquizofrênico, ou… que está mesmo possuído? Perguntou o enfermeiro à colega. Não duvido de nada nesta vida. Já vi tanta coisa estranha. O que eu sei é que ele matou toda aquela gente. Se ele é louco ou se ele estava possuído… isso não me arrisco a dizer. Conhece aquele velho ditado não??? Eu não acredito nas bruxas… mas que elas existem… ahhh existem.

O enfermeiro se benzeu três vezes. Deus me livre. Eu acredito que o mal existe. E quero é distância dele. Por via das dúvidas… vou pedir ao Manuel para trocar de ala comigo. Não quero contato com coisa de capeta. Minha vida já é complicada demais. A enfermeira riu.

O verdadeiro mal deste mundo vive dentro das pessoas meu filho. Você não precisa se preocupar com o mundo espiritual. Tirou um papel do bolso e deu a ele. Você é católico não? Tome, vá ver esse padre… é meu amigo… peça para ele lhe rezar umas missas por proteção e peça uma benção e um vidrinho de água benta e você vai estar protegido.

Ele pegou o endereço e guardou no jaleco. Olhou para ela inquisitivamente. Está me olhando assim porque. Eu sabia que você ia querer. Você tem cara de supersticioso. Você me fala de velhos ditados… disse o enfermeiro para sua colega gorducha. Deve conhecer este então. Maior sucesso do diabo foi fazer com que os homens acreditassem que ele não exite. E se benzeu de novo. E eu vou mesmo ver este padre.

Os dois alcançaram o final do corredor pelo qual caminhavam. Chegaram à estação da enfermagem a tempo de escutarem o grito mais medonho que já haviam escutado em suas vidas vindo do quarto do paciente sobre o qual eles falavam…

Entreolharam-se. Ele devia estar gritando? Estando sedado como está??? Perguntou o enfermeiro??? Ela virou-se… fechou a porta e respondeu: Não…. não deveria.

Fim…

Continua… numa proxima postagem qualquer.

Publicado originalmente em 05/01/16 em Estante da Shao

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