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Ramiro estava faminto novamente. Não que isto fosse novidade… quando se mora na rua, quando não se tem um emprego decente nem dignidade… vagando pelas ruas. Apenas mais um mendigo virando latas de lixo no meio da rua. Mais uma pessoa invisível. As pessoas das cidades grandes só te enxergam se você os está atrapalhando com a sua mera existência.

Ramiro remexia na lata, nos sacos de lixo mais uma vez. Procurando alguma coisa de valor. Talvez encontrasse algo que pudesse vender, uma parte iria usar para comprar alguma coisa para comer. Estava mesmo com muita fome, uma fome danada que uma garrafa de pinga nao iria conseguir afogar na noite que chegava. Infelizmente a pinga era mais barata que a comida.

No inverno passado ele assistira dois outros moradores de rua brigarem por uma garrafa de plástico com um pouco de aguardente dentro. Era uma noite fria, ele entendia o porque da briga. A aguardente serviria para manter um dos dois, provavelmente o vencedor da pífia batalha, aquecido na garoa, no inverno da noite paulistana. 

Ramiro olhava ao redor, estava feliz porque não era inverno, gostava mais do verão, quando não chovia claro. Não tinha que se preocupar muito em encontrar um lugar quente para passar a noite. Poderia dormir na liberdade das ruas sem se preocupar em morrer congelado enquanto dormia. Em ocasiões anteriores fora parar no hospital por hipotermia. Não era uma coisa legal.

Um casal passou por ele enquanto remexia no lixo… A mulher se encolheu, o rapaz a abraçou com mais firmeza e torceu o nariz. Ramiro teve raiva e vergonha ao mesmo tempo. Raiva porque ele não era um bandido, não iria assaltar aquelas pessoas. Vergonha porque não tomava um banho há muito tempo e sabia que estava cheirando mal. Apesar de que sei nariz já se acostumara com o fedor… Sabia que com as demais pessoas era diferente. E com o calor do verão, o suor de andar pelas ruas o dia todo debaixo do sol causticante… A situação era ainda mais crítica.

Talvez não fosse passar a noite na rua hoje apesar do calor do verão… Talvez conseguisse alguma coisa para comer e com certeza ia poder tomar um banho e se livrar do mau cheiro… Talvez colocar umas roupas limpas. A ideia lhe parecia tentadora naquele instante.

Juntou uma boa quantidade de latas, avaliou mentalmente quanto de dinheiro conseguiria por elas e resolveu que era hora de ir até o ferro velho vendê-las e depois iria para o abrigo. Era verão… O local estaria vazio. Pelo menos ele esperava que estivesse. Juntou o resto dos seus sacos com todos os recicláveis que ele tinha conseguido juntar e resolveu tomar seu rumo. O dia está chegando ao final. Um dia a menos neste mundo cruel.

Fim Publicado Originalmente em 22/01/2016 em Estante da Shao

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