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Olhou para o espelho mais uma vez. Seu rosto ficava estranho sem as sobrancelhas. Engraçado como não se da valor as sobrancelhas até que elas tenham sumido da sua cara. Dois tracinhos formados por um acumulado de pelos no meio da sua testa… que vc raramente presta muita atenção.

Cientificamente falando as sobrancelhas serviam, ela leu isto em algum lugar mas que agora não se lembrava exatamente onde, para aparar o suor que escorria pela testa dos homens pré históricos durante suas caçadas. Ela se lembra de ter pensado… ora, se essa era a utilidade delas… agora já não são mais tão necessárias. Mas agora que tinha perdido as suas… elas pareciam extremamente importantes.

Sobrancelhas eram interessantes, enfeitavam seu rosto, faziam companhia aos olhos. Ajudavam a formar as expressões… como aquela levantada ligeira de sobrancelha que sua mãe lhe enviava quando ela estava fazendo peraltices. Sobrancelhas eram importantes… ela decidiu. Suas sobrancelhas vão voltar, lhe disseram, isto é temporário… Mas quão temporário? Quanto tempo elas demorariam a crescer novamente?

Definitivamente seu rosto ficava estranho estranho sem sobrancelhas… talvez o rosto de todas as pessoas ficavam estranhos sem sobrancelhas. Um rosto sem sobrancelhas era um rosto com as expressões doentes. Ela reparara outra noite no hospital como pessoas portando a mesma doença acabavam tendo a mesma expressão em seus rostos. Como se a doença fosse uma marca qualquer que os distinguia das outras pessoas. Ela sempre se perguntou se isto ocorreria por conta de alguma característica genética, como determinada doença afeta determinadas partes do corpo humano, talvez este ataque deixassem marcas semelhantes em seus doentes. Como as marcas registradas, a assinatura, de um serial Killer em suas vítimas.

Caminhando pela ala de oncologia do hospital era via a mesma expressão, os mesmos rostos sem sobrancelhas em tantos outros humanos… Caminhando por outras alas ela vira a mesma coisa, a mesma doença, fosse qual fosse, igualava as pessoas… Cor, crença, classe social… Nada mais os diferenciava quando a doença se abatia sobre eles da mesma forma e os nivelava através da dor, do desespero e do medo. Todas aquelas pessoas da ala oncológica agora eram seus semelhantes duplamente, seres da mesma espécie é que estavam sofrendo o mesmo vitupério que ela. Assim como tornava iguais às famílias que acompanhavam seus familiares enfermos. Todos com a mesma expressão de dor velada, esperança forçada, preocupação e medo.

Olhou mais uma vez sua imagem refletida no espelho, pele cinzenta por causa da medicação, cabeça sem cabelos, olhos aparentemente maiores… Talvez por falta das sobrancelhas, ela não poderia dizer com certeza. A única certeza que possuía no momento era que a falta das sobrancelhas certamente a incomodava mais que a falta dos cabelos. Para a falta dos cabelos ainda existiam perucas… Infelizmente não existia peruca para sobrancelhas… Existia maquiagem claro, mas ainda assim seria estranho desenhar uma sobrancelha satisfatoriamente bem para ficar temporariamente no lugar das desaparecidas. Não seria?

Abriu a gaveta da penteadeira… Maquiagem… Hum… Fazia já um tempo que a mãe não se importava dela mexer na gaveta das maquiagens, nos batons caros e tudo mais. Bom, não custava nada arriscar certo? Separou cuidadosamente os elementos que achou que precisaria, que seriam adequados para a tarefa e os alinhou na penteadeira. Olhou pausadamente para cada um deles. Depois encarou longamente seu rosto novamente… Tentando se lembrar como eram as sobrancelhas originais, e calculava… Serei capaz de recria-las? Ou deveria inovar, aproveitar a oportunidade e criar algo novo, original? Como se de um instante para o outro seu rosto houvesse se tornado uma tela em branco onde ela, simplesmente desenhando duas linhas entre os olhos e a testa, poderia criar para si uma nova imagem. Uma nova pessoa…

Sobrancelhas pareciam extremamente importantes neste momento… Mas ela hesitava. Seria capaz? Conseguiria atingir um resultado feliz? Suspirou, estendeu a mão e apanhou o pincel… Antes porém de erguer a mão e levá-la ao rosto, sentiu a mão maior, mais enrugada e calejada, mas ainda assim tão bela e delicada, com as unhas longas e bem cuidadas como sempre da mãe cobrir a sua. Olhou por sobre o ombro, os olhares se cruzaram e a mãe sorriu confiante. Vai ficar ótimo, faremos juntas! Disse com a voz firme de quem sabia o que estava falando.

Sorriu de volta e pensou… Sim, ia dar certo, tudo daria certo no final. Tudo sairia perfeito. Sobrancelhas afinal, eram muito importantes.

Fim

Publicado originalmente em Estante da Shao em 08/01/2016

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