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Fala galera beleza, este post na verdade vai ser um repeteco, eu resolvi pegar todos os posts do outro blogue e colocá-los aqui. Porque eu dificilmente eu vou conseguir continuar com aquele projeto e eu não quero que os textos que eu escrevi fiquem lá naquele canto, largados. Vou meio que guardá-los aqui, para… não sei… usar no futuro. Não sei exatamente como… ainda preciso pensar nisso, podem esperar os outros aparecerem por aqui, se vc já leu, pode pular, se vc curtir deixa uma curtida aí, compartilhe pelas internets da vida. Quem sabe se bastante gente curtir me anime a fazer alguma coisas com o texto. Boa leitura…

Conselho de mãe é coisa a ser levada a sério. Sempre! Mãe é um ser extraterrestre que foi escolhida por seres supremos e extremamente, superiores e ultra desenvolvidos para lhe dar avisos de catástrofes iminentes… e conselhos claro, que você, querendo ou não, vai carregar consigo a vida inteira. E que um dia quando, numa esquina dos seus dias, esbarrar com uma situação espantosa qualquer vai te fazer pensar ‘ah então era disto que minha mãe falava’. Eu lembro-me de tantos dos que a minha mãe me deu.

Lembrança de estar sentada, com as minhas tranças, meu uniforme do colégio, os pés mal tocando o chão, ouvindo-a destilar sua sabedoria. E eram conselhos sobre os mais variados temas… sobre tudo, sobre todas as coisas.

Um dia ela me falou sobre as pessoas amargas. Éramos só nos duas, muitos dias, muitas horas do dia, ela me ouvia enquanto eu pacientemente contava pra ela meu dia na escola. E quase sempre, algum acontecimento do dia ganhava uma lição para a vida.

Preste atenção, uma vez ela disse, você esta vendo aquela mulher? Olhe bem pra ela… e uma mulher de certa idade já… mas você olhando para ela da pra ver como um dia ela foi uma moça muito muito bonita. Da baixa estatura dos meus nove anos de idade eu olhei para a tal mulher e não consegui ver nada além da carranca retorcida. Não consegui enxergar a beleza que ali outrora morava… Cara de quem estava com uma dor de barriga imensa, eu me lembro de ter pensado. Mas a cara dela estava sempre assim… retorcida, eu me lembro que ate mesmo seu sorrido parecia deformado pelo que estava no fundo dos olhos dela… e que eu na época não sabia exatamente definir o que era.

Eu não vejo como ela pode um dia ter sido uma moca bonita mãe. Eu disse. Minha mãe apenas sorriu. Aquele sorriso dela que queria dizer tanta coisa. Você diz isso porque você enxerga o mundo com olhos puros. Mas, infelizmente, um dia você vai entender o que eu estou te dizendo… um dia.

Então ela continuou… Ela já foi uma moça muito bonita no passado. Mas agora ela não passa de uma pessoa amarga. Que só consegue prestar mais atenção na vida das outras pessoas e de como essas outras pessoas são mais felizes que ela. E enquanto ela perde tempo invejando a felicidade das outras pessoas ela fica cada vez mais amarga.

Ele deve ter visto o ponto de interrogação desenhado na minha testa. Naquela idade eu não conseguia entender exatamente o que era uma pessoa amarga. Uma pessoa amarga, continuava ela, é uma pessoa que parou de viver a própria vida, para ficar apenas observando e invejando a vida dos outros. Eu fico triste por elas, eu disse. E depois de pensar um pouco: Por que ela simplesmente não vai viver a vida dela? Eu lembro de ter perguntado. Ela não seria mais feliz assim? Talvez… mas ela não enxerga as coisas assim.

Minha mãe ainda me disse que a pessoa as vezes nem percebia que estava fazendo isso. Que este tipo de gente fica prestando tanta atenção no que as outras tinham, no que as outras faziam, ou no que não faziam, nos amigos que ela fazia, na família que elas haviam constituído, nos presentes que elas ganhavam no amigo secreto no final de ano e até  mesmo nas coisas que elas comiam. Que não se esqueciam de viver as próprias vidas.

Então eu perguntei para a minha mãe como elas se tornaram dessa forma e minha mãe me disse que ela não sabia bem, mas que a grande maioria tinha se esquecido de sonhar, talvez num momento qualquer da vida delas, alguma coisa deu errado, seus planos não se concretizaram e elas perderam as esperanças de serem felizes e começaram a se perguntar. Porque fulano tem isso e eu não? Porque eles sorriem enquanto eu estou triste? Se perdem nas comparações…

Fique longe dessas pessoas minha filha. Ela avisou. Você vai encontrar muitas delas pela vida afora. Nos seus amigos, nos seus colegas de escola, nos seus companheiros no trabalho e em toda a sorte de gente que você tiver que lidar no dia a dia. Mas fique longe delas… não as tome como exemplo e acima de tudo. Não se torne uma delas. É bem fácil nos deixarmos levar por sentimentos mesquinhos. Fácil sentirmos inveja da felicidade das pessoas. Fácil nos perdemos nos tropeços do caminho e nos enroscarmos nas tristezas. Mas o caminho fácil nunca é o mais correto não é mesmo? Ela me perguntou eu eu silenciosamente concordei com um movimento de cabeça. Difícil é ficar feliz com a felicidade alheia, sem inveja-la, sem querer igual, sem querer tomar nada dos outros. Difícil é não se esquecer de correr atrás dos nossos sonhos. Difícil é vivermos as nossas vidas.

E como a gente faz pra não ficar assim? Amargo? A idade das perguntas mil… A gente não deixa os sonhos para lá. E tenta não se esquecer de viver. E não podemos ficar comparando as nossas vidas com as das outras pessoas. E a gente fica feliz com a felicidade das outras pessoas. A gente fica feliz junto. Disse ela sorrindo de novo. Então eu percebi que a minha mãe tinha conseguido… ela não tinha ficado amarga. Como ela tinha conseguido??? Hoje eu me pergunto. Talvez ela tivesse realizado os sonhos dela, talvez ela sorrisse tanto que amargor nenhum fosse capaz de se juntar dentro dela. Talvez esse fosse o segredo. Ficar verdadeiramente feliz junto com as pessoas.

Minha mãe tinha razão, eu já cruzei com centenas de pessoas assim na vida. Uma coisa não mudou. Eu ainda fico triste por elas. Infelizmente não pude seguir ao pé da letra o conselho da minha mãe e ficar longe dessas pessoas… porque esse tipo de pessoa simplesmente despenca na sua vida de vez em quando e vc é obrigada a conviver com elas. No condomínio, no trânsito, na feira-livre, no caixa do supermercado, na escola, no trabalho… E infelizmente a amargura delas as vezes suga a sua alegria. Te deixa mal humorado. Irritado. Com raiva mesmo. Acho que é assim que elas contagiam as outras pessoas é que o amargor se espalha pelo mundo e pelos corações.

Mas eu descobri também que existem pessoas que são como girassóis… que estão sempre sorrindo. Mesmo com suas vidas nubladas, mesmo com as folhas meio queimadas, meio secas, meio murchas. Minha mãe não era um girassol… ela era uma plantação inteira deles. Acho até que ela era o sol que emprestou o nome a flor. E eu encontrei muitos girassóis nessa vida também. E eu me cerquei deles… porque assim a gente também evita de ficar amargo, nos cercando de sorrisos, de doçura, ficando feliz junto. Nem sempre e fácil. Mas… no final das contas vale muito a pena.

Fim

Publicado originalmente em Estante da Shao em 01/01/2016

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