Image result for Senhora José de Alencar

Fala terráqueos. Como vão vcs? Eu tô melhor da intolerância e da hipoglicemia. Sabado atarefado como sempre. Lavando roupa pra caramba, estudando. Consegui assistir todas as aulas. Tenho duas semanas para rever tudo e fazer a prova. Vamos ver se eu consigo fazer o que eu tenho para fazer e continuo adiantada nas minhas agendas. É treta, ainda mai quando acontece um dia como o de ontem que eu fico doente que nem um cachorro vira-latas, quando tudo o que vc quer fazer é apenas ficar deitada na sua cama com seu mal estar e que o mundo se acabe em barranco.

Mas nem era disso que eu queria falar hoje, se vcs não gostam de textos longos nem de literatura… podem ir embora. Vou falar de um dos meus livros favoritos de todos os tempos. “Senhora” do José de Alencar. Primeiramente, por que ele é um dos meus livros favoritos? Porque foi um dos primeiros livros de literatura brasileira que eu li… na verdade o primeirão… foi “O Guarani” do mesmo autor… Foram livros que abriram para mim as portas da língua portuguesa. Porque a primeira vez que eu tive contato a linguagem na qual eles foram escritos, foi um choque! Eu me senti analfabeta da minha própria lingua quando eu dei de cara com palavras como ’toucador’ hahahahahaha.

E eu me lembro de ter começado a perguntar pra minha mãe o significado das palavras que eu não conhecia, e eram muitas porque o livro era do século 19. Ela pegou, eu lembro até hoje, o dicionário da estante de livros, eu tinha nove anos e me disse: Procura aqui as palavras. Pessoal chama o dicionário de ‘pai dos burros’ eu chamo de ‘o pai dos curiosos’. Vai lendo o livro, se vc encontrar uma palavra que vc não conhece vc grifa e depois procura aqui. Vai fazendo assim capítulo por capítulo, depois vc vai ler o capítulo de novo. Até que vai chegar uma hora que vc não vai mais precisar do dicionário porque vc vai ter aprendido um monte de palavras novas.

Eu acho que nunca agradeci a ela por isso… Obrigada mãe! Se não fosse por vc hoje eu estaria de mãos dadas com os analfabetos funcionais que estão hoje torcendo para os professores de literatura reescreverem os clássicos para que eles possam entender esses autores maravilhosos do século 19. Ou seja, se eu tenho um vocabuláirio gigante hoje eu devo muito à minha mãe. E ao meu pai também porque ele pegava o meu caderno quando eu era criança e corrigia o que eu tinha escrito errado… mas isso é tema pra outros post. 

Mas vamos para o livro. Resumidamente porque eu acho que todo mundo deveria ler esse livro. “Senhora” conta a história de amor e tragédia de Aurélia Camargo e Fernando Seixas. Fernando e Aurélia são dois jovens pobres que se conhecem e se apaixonam. Entretanto Aurélia é bem mais sonhadora e bem mais pobre que o Fernando. Fernando tem mãe e irmãs que fazem de tudo para ajudá-lo a se destacar na sociedade. Ele, querendo bancar o bacana… gasta toda a grana do Dote das irmãs em roupas e festas… e se vê numa situação precária quando a irmã mais velha tem que se casar e não tem grana para o dote… podendo assim perder o casamento. Mesmo apaixonado, e compromissado com Aurélia, ele… salafrário pra caramba troca a pobre desvalida e sem dote da Aurélia, por Adelaide do Amaral… uma vizinha da moça que tem um dote de 30 contos de réis. Aurélia fica sabendo que foi trocada por outra mas ela acha que Fernando a trocou pelo amor de Adelaide. Ela fica deprimida, mas ela nem tem tempo para ficar tão deprimida porque desgraça pouca é bobagem… a mãe dela, a última parente viva que ela tinha, morre… e ela fica à beiras de ir parar na rua. Ainda por cima um tio muito do safado que ela tem… insinua que ela possa trabalhar como cortesã (prostituta) porque ela era uma moça muito bonita.

Mas acontece que, antes de conhecer Fernando Seixas ela tinha despertado a paixão de um nobre rico chamado Eduardo Abreu, e ele a socorre no momento de desespero, bancando todo o funeral de sua mãe. E como sorte pouca também é bobagem, logo em seguida ela se descobre única herdeira de uma fortuna de um avô fazendeiro… de mil contos de réis. Nesse meio tempo também ela descobre que seu amado Fernando não a abandonou pelo amor de Adelaide, mas sim pela sua pequena fortuna (pequena perto da dela… né?) de trinta contos.

Só que então amiguinhos… Aurélia tá podre de rica, em cima da carne ceca. Ela resolve fazer o quê? Se vingar daquele salafrário que fez seu coração em pedaços. Ela ordena ao tio… que é outro safado e que virou seu tutor. Que consiga arranjar o casamento dela com o Fernando. Ela sabe que ele está precisando de grana e oferece como dote… quase dez vezes mais do que o dote de Adelaide. O tio dela então procura o rapaz e oferece a mão da sobrinha em casamento e oferece o dote de 200 contos de réis. Detalhe… Fernando não sabe que a noiva que estão lhe oferecendo era Aurélia. Ele fica sabendo disso apenas pouco antes do casamento.

E ele acha que finalmente ele vai ter o felizes para sempre que ele sempre quis, se casando com a moça que ele ama e sendo podre de rico. Entretanto na noite de núpcias Aurélia derruba o forninho dele e joga a real. Falando que nada disso meu amigo… eu comprei vc, e agora vc é meu escravo. Inclusive é por isso que o nome do livro é “Senhora”.

Essa é uma das minhas cenas preferidas do livro. Não pela vingança nem pela humilhação do personagem do Fernando. Mas porque a Aurélia descreve exatamente o que uma pessoa sente quando é traída por alguém que ela não esperava. Ela diz: “Desprezasse-me embora, mas não descesse da altura em que o havia colocado dentro de minha alma. Eu tinha um ídolo; o senhor abateu-o de seu pedestal, e atirou-o no pó. Essa degradação do homem a quem eu adorava, eis o seu crime; a sociedade não tem leis para puni-lo, mas há um remorso para ele. Não se assassina assim um coração que Deus criou para amar, incutindo-lhe a descrença e o ódio. (…) A riqueza que Deus me concedeu chegou tarde; nem ao menos permitiu-me o prazer da ilusão, que têm as mulheres enganadas. Quando a recebi, já conhecia o mundo e suas misérias; já sabia que a moça rica é um arranjo e não uma esposa; pois bem, disse eu, essa riqueza servirá para dar-me a única satisfação que ainda posso ter neste mundo. Mostrar a esse homem que não me soube compreender, que mulher o amava, e que alma perdeu. Entretanto ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe-ei que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; consinta-me que eu o ame. Essa última consolação, o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor matou-me o coração, era justo que o prendesse ao despojo de sua vítima. Mas não desespere, o suplício não pode ser longo: este constante martírio a que estamos condenados acabará por extinguir-me o último alento; o senhor ficará livre e rico.”

Caso vcs queiram ver a cena… foi gravada numa novela da Record e a cena ficou bem semelhante ao original. Se vcs quiserem ver, acho que a novela toda está disponível no You Tube. A obra toda também está disponível em PDF na Internet… a obra já é de domínio público então não é crime vcs fazerem o download se quiserem ler.

O resto do livro vai se desenrolando, Aurélia pisoteando no Fernando… mas quando ela está só ela se acaba de chorar. Enquanto isso o Fernando vai sofrendo uma metamorfose e de vilão ele passa a mocinho da história. Ele sofre uma completa mudança, começa a ralar, a trabalhar e a viver como um monje praticamente. Juntando dinheiro para devolver a Aurélia a parte do dote que ele tinha gasto devolvendo a grana que ele gastara do dote das irmãs.

O livro é dividido em quatro partes sendo o nome da última parte Resgate, que é quando ele finalmente consegue juntar a grana que ele tinha gasto do dote, mais juros e correção e ele entrega para ela, comprando de volta a sua liberdade. Dizendo que ela então não é mais a sua Senhora. 

Falando do texto… a Linguagem é difícil… muita gente acha que ele é pedante… não é pedantismo, era o estilo da época. Era o estilo que os autores da época achavam bonito de se escrever. Como eu já disse, entendam que este livro foi escrito no século 19. Movimento literário acho que era o Romantismo… não lembro, faz tanto tempo que eu esstudei isso… mas acho que era sim, segunda fase do romantismo se eu não estou enganada já abrindo as portas pro realismo que vai parir Machado de Assis.

E José de Alencar apesar de ser um homem conservador de sua época escrevia para um público feminino. Portanto ele tinha que escrever personagens assim como a Aurélia. Ele tem outras personagens femininas fortes e à frente de seu tempo. Mas a Aurélia é uma das minha favoritas.

Uma curiosidade sobre esse livro é que ele era mesmo um dos meus favoritos na pré adolescência e quando eu estava no Ensino Fundamental, não me lembro a série… sexta ou sétima… uma professora de Literatura escolheu essa obra para ser a prova final do semestre e na época, eu sabia alguns trechos da obra de cor. De tanto que eu gostava do livro. Hoje em dia eu não sei mais… hahahahaah esqueci, mas me dêem um desconto eu tinha uns doze anos. E a profesora me deu uma nota pífia na prova do livro. Eu fiquei indignada hahahahaha. Porque velho, ela me disse que eu não tinha lido o livro. Essa minha professora era bem senhorinha, devia já ter uns 60 e poucos anos e ainda dava aulas (pra sexta série… corajosa ela) nome dela era Icléa.

Quando eu cresci mais um pouco. E teve toda aquela agonia de fazer cursinho e estudar para a Fuvest. Eu tive trocentas aulas sobre romantismo e José de Alencar e análises de obras e o caramba e o que eu respondi na prova estava bem de acordo com as análises dos professores do cursinho. Tanto que eu refiz provas semelhantes e sempre tirei nota máxima (não querendo me gabar… é que realmente eu tinha lido várias vezes o livro). E eu fiquei com aquilo na cabeça e eu cheguei à conclusão que ela era uma daquelas professoras que não admitem quando um aluno, ainda mais um pirralho de 12 anos, sabe mais que ela sobre um livro qualquer.

Mas quando eu entrei na faculdade de Letra anos mais tarde… Eu conheci uma colega de sala, que era professora de lingua portuguesa, de Francês… de trocentas matérias. Era uma senhorinha de seus sessenta anos também. E eu com 19 anos nessa época… tive um outro parâmetro das professoras. Ela me disse que só tinha o Magistério. Ela não tinha curso superior. Que ela se espantava com o nível de análise dos personagens, da obra, do período histórico das nossas aulas de Literatura, que ela nunca tinha visto nada daquilo e que ela estava amando. Mas ela só tinha começado o curso de Letras porque naquele ano o governo estava exigindo que as professoras tirassem diploma de Graduação, que muitas não tinham e tal.

Eu não sei se a minha professora Icléa tinha curso superior, se ela era apenas uma professora irritada com a pirralha sabe tudo que eu era. Só sei que tirando esse incidente que eu tive com ela por conta da prova do livro… eu nunca tive outro problema qualquer com ela e ela foi uma das melhores professoras de gramática que eu já tive na vida. Eu emburrei com ela porque nerds como eu não gostam de tirar nota baixa… hahahahaahha. Mas ela era uma baita professora e eu aprendi para caramba com ela.

Vou terminando este post por aqui porque já está imenso, espero que vcs tenham curtido, eu tentei manter a linguagem bem coloquial, porque um tempo atrás eu escrevi uma análise sobre um livro e me disseram que eu estava usando termos muito acadêmicos hahahahahaa, leiam o livro é bem legal, tem versões com rodapé e glossário por aí para facilitar a leitura, mas… encarem esse desafio, se vcs não curtirem a história pelo menos vão aumentar o vocabulário de vcs… Antes entretanto de terminar este post eu vou fazer um pouco de propaganda do meu novo blogue o “Estante da Shao”. Cliquem no link conheçam meu trabalho, meus textos, meus contos, meus poemas. Toda a sexta-feira teremos texto novo e inédito para vcs… Ou um conto ou um poema, ou de repente um trecho de uma história que eu esteja escrevendo. Participe e divulgue esse meu novo projeto se vcs curtirem…

See you guys around the corner
Shao