discriminacao

Fala terráqueos, como vão indo vcs???  Eu vou indo bem… ainda atrasada, como sempre, mas menos atrasada. Consegui tirar um pouco do atraso. Quem sabe eu consiga colocar as coisas em ordem definitivamente neste final de semana (ou não, sou enrolada mesmo… me julguem). Ainda preciso arrumar meu guarda-roupa, tá uma bagunça tão grande dentro dele que todos os dias de manhã quando eu abro a porta para pegar alguma coisa cai outra na minha cabeça. Nossa Shao que vergonha… Ahhh me deixem!

Mas, como sempre, nem era disso que eu queria falar neste post. Eu estou relembrando as coisas do passado, coisa de gente velha… Vc vai ficando mais velha fica geneticamente mais propenso a fazer coisa de gente velha, uma delas é ficar lembrando das coisas. Qualquer coisa que te aconteça vai irremediavelmente te remeter a outra que aconteceu anos antes. Eu fui ao cinema uns tempos atrás assistir “Invocação do Mal 2” como raramente acontece eu fui assistir na estreia, porque eu estava muito afim de ver este filme. E lá no cinema aconteceram uns perrengues… (mas isso é assunto para um outro post… voltem amanhã que amanhã eu prometo falar sobre isso)… que me fez pensar no tema discriminação. Até onde é discriminação, até onde é ignorância… é uma linha muito tênue.

Não sei se eu já comentei aqui no blogue (provavelmente sim) mas a minha mãe era deficiente física, ela teve poliomielite (paralisia infantil) quando tinha três anos de idade e quase morreu, e ficou com as sequelas da doença. E diversas vezes, andando pelas ruas com ela, muitas vezes de mãos dadas com ela, ou ela segurando no meu braço porque ela precisava de apoio às vezes quando estava muito cansada ou com dor na perna, eu vi (não estou mentindo, eu vi isso diversas vezes) muitas pessoas olhando para ela com expressão de nojo no rosto, como se… Deus o livre, ela encostasse neles eles fossem pegar a paralisia dela.

Eu ouço muito se falar em discriminação hoje em dia, parece que é um dos temas da moda. E as pessoas estão numa cruzada utópica para exterminar todos os tipos de discriminação. Muito se tem falado em discriminação de gênero, de religião, de classe, de etnia. Mas a lista é tão maior das discriminações que existem por aí. E muitas vezes a maioria das pessoas nem se dá conta que elas existem porque não viram ou não sofreram este tipo de discriminação.

Minha mãe foi discriminada por várias coisas na vida dela, por ser deficiente, por ser casada com um negro (meu pai e meu padrasto são negros) e por ser pobre. Deixa eu contar para vcs três casos que aconteceu com ela… porque ela era pobre e deficiente… (mais ainda por ser pobre). Minha mãe trabalhava como Escrevente no Tribunal de Justiça de SP e ela ganhava até que bem. Mas ela era uma pessoa que não tinha muita firula para se vestir, ela gostava de se vestir com simplicidade e praticidade.

E por causa disso… diversas vezes em lojas que a gente ia comprar as coisas os vendedores não iam atender a gente. Ou atendiam mal. Houve três casos que me marcaram bastante. Uma vez a gente foi numa loja comprar um computador e minha mãe tinha dito para mim: ‘Monta aí a configuração do computador que vc precisa para estudar e trabalhar, pega umas peças boas, não importa o preço, eu quero que vc tenha condições de fazer as coisas que precisam ser feitas.”. Na época eu estava estudando WebDesign… com a ajuda do meu professor eu fiz a configuração ideal lá pro meu uso e a gente foi na loja.

Chegando lá… um vendedor começou (muito de mal vontade, porque minha mãe estava vestida com umas roupas simples, nada de coisa chique porque ela não era disso…) atender a gente, e ela apresentou a tal configuração da máquina pra ele… e ele ficava a todo o instante tentando substituir as placas e peças que estavam na lista por componentes mais baratos e de qualidade inferior. Obviamente porque a minha mãe estava vestida como pobre e ele pensou, essa tia aí não vai ter grana para pagar esse puta computador. Até que minha mãe perdeu a paciência com o cara e disse… “Escuta, eu quero esta configuração… com estas marcas de peças… não me interessa se tem outros mais baratos. Eu quero isso!” o vendedor relutantemente fez lá o calculo de quanto ficaria montar aquele PC e ficou caro pra caramba.

Minha mãe tira o holerite dela, mais o talão de cheques… e fala:”Vcs aceitam cheque?” O queixo do homem caiu nas profundezas do inferno. Quando ele pegou o holerite dela em mãos e leu Tribunal de Justiça de São Paulo ele começou a chamar ela de doutora, achando que ela era juíza, ou advogada. Quando a gente saiu da loja ela riu e disse: ‘Vc viu que engraçado, foi só mostrar o holerite que eu ganhei doutorado e tudo!” Nessa mesma loja aconteceu a mesma coisa quando a gente foi comprar uma impressora… que ela pagou a vista e em dinheiro…

Outra vez, foi numa loja de sapatos, a gente foi na loja comprar uns tênis pros meus irmãos, para começar o ano letivo. E minha mãe entrou pra perguntar o preço daquela sapatilha moleca, que na época era 20 reias ou menos… muito barato, e ela gostava daquela sapatilha porque não apertava o pé dela… E um dos vendedores, quando a gente entrou… mediu minha mãe de cima abaixo e chamou um vendedor novo lá e disse com desdém:’Atende essa senhora aí.’ Tipo, eu não preciso de vender sapatilha de vinte reais. O rapaz veio… começou a atender a minha mãe, com muita educação… e minha mãe ficou tão irritada com o tratamento que o primeiro cara deu a ela que ela virou para os meus irmãos e disse:’Pode escolher qual tênis vcs querem.’ a gente sempre soube que dinheiro não dá em árvores, perguntou pra ela:’Valor até quanto mãe?’ ela vira e diz:’Qualquer tênis, o que vcs quiserem, da marca que vcs quiserem. Não interessa o preço.’

Meus irmãos claro, fizeram a festa… sabe como é moleque, adolescente, com esse lance de tênis de marca né? Pegaram lá uns todos cheio de coisas. Minha mãe pegou a sapatilha dela. Daí ela vira para mim e diz:’Pega um tênis pra vc também.’ e eu ‘Não, mas eu não estou precisando de tênis, o meu tá bom ainda.’ ela insistiu, não interessa… pega lá… eu fui e peguei um… Naquela tarde… isso uns 15 anos atrás. Minha mãe pagou em dinheiro, à vista uns 500 reais. Eu quase nunca vi um vendedor tão feliz na minha vida. Já o outro… ficou com cara de bosta. Perdeu uma puta comissão…

Engraçado que… hoje em dia, eu tenho pelo menos meia dúzia de pares de tênis… (comparado a gente doida eu tenho até poucos hahahahha tem gente que tem dezenas) na época eu tinha um tênis de lona barato pra bater no dia a dia, e um sapato social pra igreja, casamento festa e tal… E claro, quando vc é adolescente vc quer aquele tênis bacana, como seus amigos… mas eu nunca fiz questão porque eu pensava (eu penso até hoje assim) porque diabos eu vou gastar 600 reais num tênis, se com 100 eu compro um tênis bacana que atende minhas necessidades.

Voltando… terceiro causo… Isso aconteceu também numa loja de móveis. Minha vó teve que mudar, sair da casa dela e ir para um apartamento que era bem menor e por conseguinte teve que comprar uma série de coisas novas porque as antigas não cabiam na casa nova. Minha mãe praticamente mobiliou a casa nova da minha vó. Novamente, um vendedor não quis atender ela porque ela perguntou o preço de um fogão, que era baratinho e um outro vendedor mais novo, que atendeu ela e ganhou aquela comissão.

É uma coisa estranha isso… eu olho para trás e penso… caraca quanta coisa a gente já passou na vida. Eu concordo que a discriminação em todas as áreas tem que ser dirimidas até que desapareçam. Mas, isso é muitas vezes uma questão de educação… não basta criarem leis e punições. É necessário criar consciência nas pessoas.

Vou terminando este post por aqui… Mas… antes de terminar este post eu vou fazer um pouco de propaganda do meu novo blogue o “Estante da Shao”. Cliquem no link conheçam meu trabalho, meus textos, meus contos, meus poemas. Toda a sexta-feira teremos texto novo e inédito para vcs… Ou um conto ou um poema, ou de repente um trecho de uma história que eu esteja escrevendo. Participe e divulgue esse meu novo projeto se vcs curtirem…

See you guys around the corner
Shao

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